segunda-feira, 16 de fevereiro de 2004


“Vais ficar como nova” sorriso.
“Anda senta-te aqui, pousa a cabecinha“ festa no cabelo “já passou, agora vai correr tudo bem.”
“Não há marcas, vês? Podes voltar a ser quem eras, com os teus amigos, aqueles que gostam mais de ti.”
Bonito.
Mas as coisas não voltaram a ser como eram. Tudo falso. Eu triturada, cortada, aspirada.A sufocar em sangue e limpeza. Amarrada para não fugir com a dor. Á espera do próximo golpe. Cicatrizes mal fechadas. Eu, suja. Eu, humilhada.
Eu, estupida. Sem saber para onde me virar e em quem confiar. Estupida.
Gritei ajuda, com todas as forças, pedi. Mas ninguém veio. Eu pequenina, insignificante, com o peso do mundo no ventre, nas veias, com um sabor amargo nos lábios. Envergonhada por estar tão sózinha no meio de tanta gente.
Quis falar abertamente. Não percebi que todos podiam esquecer. Todos. Menos eu.
As feridas que não saram têm de ser amputadas para desaparecer. E a minha ficou presa cá dentro.
Mas as pessoas não querem ver podridão, sabem que ela lá está, mas preferem a leve consciência tranquila. É bom aliviar a dor de quem sofre, mas quando esta nos arrasta para baixo começamos a querer fechar os olhos. Um filme de terror é bom porque não dura uma vida inteira.

“Mulher corajosa, vá podes ir embora...vai lá à tua vidinha!” Pronta para outra.

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