domingo, 4 de abril de 2004

Mas quando as vozes se calam.
Quando fecho a porta e sozinha percorro o quarto...
Lá está o espelho... à espera.
Silencioso.
Envolto numa quietude perversa.
Consigo sentir. Consigo cheirar. A sua voz suja de maldade.
Sussurra ao ouvido tudo o que não quero ouvir. Tudo o que não sou. O que queria ser. Mais magra, esbelta, mais alta, esguia, elástica, perfeita... perfeita... não na minha perfeição. Na perfeição deles. Lá fora, no mundo.
Então, com um gesto violento fecho a porta do armário. Escondo-me nos cobertores e tapo os ouvidos.
Num leve murmúrio ainda ouço, baixinho. Palavras aparentemente dóceis, sopradas ao ouvido: “espreita, dá uma olhadela, vê a tua realidade”.
E eu fraca, sigo. Deitando migalhinhas de pão, para não me perder, esperando encontrar uma resposta certa.
Aproximo-me lentamente.
Dispo as roupas e nua olha para este corpo.
Um corpo que não é meu.
Não pode ser meu.
Não me vejo aqui, não me quero aqui.
Quero apagar. Arrancar o cabelo, rasgar a pele, cuspir a carne, esmagar os ossos.
Deitar fora a imagem que me reflecte. Queimar, cortar, despedaçar, não deixar um centímetro.
Guardar apenas a alma.

“O que é que estavas a fazer?”
“Estava a olhar para a embalagem do iogurte, é tudo tão simples, irónico. Também estou em pedaços.”
“Oh mor... eu colo-te”

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