segunda-feira, 29 de janeiro de 2007


natalie dee

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Sim

Paula Rego

"Gostava de chocolates e de bicicletas, avançava pela vida com uma audácia pueril. E eis que estava ali deitada, no meio do seu sangue vermelho de mulher, e a sua juventude e a sua alegria derramavam-se-lhe do ventre num gorgolejar obsceno.

- Então, minha flor, o que é que não vai bem? – disse a velha.

Olhei para ela com inquietação. Uma abortadeira. Parecia-se de tal maneira com o que realmente era que o seu aspecto não chegava a ser real. Estava vestida de preto, tinha os cabelos loiros, as bochechas flácidas, cor de rosa e brancas, e uma boca pintada de cor de laranja; os olhos eram os olhos de uma velha, muito pálidos, pestanejantes e um pouco remelosos. Veria ao menos bem? Adivinhava-se por baixo da pintura do rosto uma carne mal lavada. Olhei as duas mãos de unhas pintadas. Uma pessoa segura. Levantou os lençóis e eu virei as costas. Um cheiro pesado e baço encheu o quarto.

- Ainda não saiu – disse ela. – Fez bem em chamar-me. Vou ajudá-la. Isto vai ficar pronto num instante.

- Vai passar? – disse Hélène.

- Num instante.

- Está tudo bem? – disse eu.

- Com certeza. – A mulher começou a rir: - Você parecia tão transtornado que eu esperava o pior. Meu Deus! Parece que nunca viu nada. Eu ouvia-a remexer nas minhas costas: - Onde está o meu saco? É triste envelhecer; já não vejo nada a três passos de mim.

- Aqui o tem. – disse eu

Ela pegou no saco preto, abriu-o; vi um lenço, uma caixa de pó-de-arroz, um porta-moedas; a mulher mergulhou até ao fundo da bolsa a mão de unhas pintadas e tirou de lá uma pequena tesoura doirada. Aproximei-me da janela e contemplei a fachada cinzenta do outro lado da rua. Tinha frio. Não ousei dizer-lhe para passar as tesouras por uma chama.

- Não tenha medo, minha flor.

Eu ouvia a respiração sacudida de Hélène.

- Faça força – disse a velha -, já está. – Chamou por mim: - Senhor!

Voltei-me. Havia uma bacia nas mãos dela. Os dedos, o punho e todo o antebraço dela estavam tão vermelhos como as suas unhas.

- Vá despejar esta bacia.

Hélène estava deitada ao comprido, com os olhos fechados. A sua camisa de noite infantil descobria-lhe os joelhos; por baixo das suas pernas, havia um oleado cheio de algodões ensanguentados. Peguei na bacia, atravessei o patamar, e destapei a tampa da sanita. A bacia estava cheia de sangue e nessa nata vermelha flutuavam grandes pedaços de miolo de vitela. Esvaziei a bacia e puxei o autoclismo. Quando regressei ao quarto, a velha lavava na pia de despejo os algodões vermelhos.

- Dê-me um papel grande – disse ela. – Vou fazer um embrulho com todos esses algodões. Você deita-o depois num esgoto.

- Está tudo bem? – disse eu.

- Sim. Não é nada de grave. Riu: - com certeza que você não está habituado.

Levou as mãos e ajustou o chapéu diante do espelho. Eu voltei a atear o lume, e quando a velha saiu, fui sentar-me ao pé de Hélène."

Simone de Beauvoir in O Sangue dos Outros

domingo, 21 de janeiro de 2007

"Sometimes a woman's heart has salt,
Or too much blood;
I tear her breast,
And see the blood is mine,
Flowing from her, but mine,
And then I think
Perhaps the sky's too bright"
Dylan Thomas


Guayasamin






Subo,

com o estrondo ensurdecedor da casa vazia

mordo o lábio ao abrir a porta e entro.

o corpo desmorona em soluços pelo soalho.

sou um naco de carne, eu sei. Repito alto. Eu sei. Eu sei.

vou apodrecendo nos dias


mas às vezes sou estúpida o suficiente

e acredito que

Estúpida.


"Pin my arm to the wall
Now I'm too gone to fight"

sábado, 13 de janeiro de 2007

Nas horas fáceis descasco tangerinas com as mãos e devaneio pelos cantos da casa com rostos de desconhecidos acorrentados aos olhos.
Abrem-se (-me) os sonhos como frutos maduros.
o meu corpo que nem para amar serve


Maya Kulenovic

"O tempo rói-me a pele e os músculos. Rói-me os ossos. Secretamente infiltra-se nas veias e bate misturado no sangue."
Centeno

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

"Agarramo-nos e não ficamos presos a ninguém e a nada."
Y.K. Centeno

"Estávamos os dois parados sem falar e de repente o tempo condensou-se entre nós palpável como um nevoeiro que foi endurecendo até ficar igual a uma parede branca de cimento. Não dizíamos nada porque não havia nada a dizer e o tempo ficou ali entre nós de pé muito direito como um estranho que não nos tivesse sido apresentado e que por isso mesmo não podia meter-se na conversa."
Y.K. Centeno
Web Pages referring to this page
Link to this page and get a link back!