terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Sim

Paula Rego

"Gostava de chocolates e de bicicletas, avançava pela vida com uma audácia pueril. E eis que estava ali deitada, no meio do seu sangue vermelho de mulher, e a sua juventude e a sua alegria derramavam-se-lhe do ventre num gorgolejar obsceno.

- Então, minha flor, o que é que não vai bem? – disse a velha.

Olhei para ela com inquietação. Uma abortadeira. Parecia-se de tal maneira com o que realmente era que o seu aspecto não chegava a ser real. Estava vestida de preto, tinha os cabelos loiros, as bochechas flácidas, cor de rosa e brancas, e uma boca pintada de cor de laranja; os olhos eram os olhos de uma velha, muito pálidos, pestanejantes e um pouco remelosos. Veria ao menos bem? Adivinhava-se por baixo da pintura do rosto uma carne mal lavada. Olhei as duas mãos de unhas pintadas. Uma pessoa segura. Levantou os lençóis e eu virei as costas. Um cheiro pesado e baço encheu o quarto.

- Ainda não saiu – disse ela. – Fez bem em chamar-me. Vou ajudá-la. Isto vai ficar pronto num instante.

- Vai passar? – disse Hélène.

- Num instante.

- Está tudo bem? – disse eu.

- Com certeza. – A mulher começou a rir: - Você parecia tão transtornado que eu esperava o pior. Meu Deus! Parece que nunca viu nada. Eu ouvia-a remexer nas minhas costas: - Onde está o meu saco? É triste envelhecer; já não vejo nada a três passos de mim.

- Aqui o tem. – disse eu

Ela pegou no saco preto, abriu-o; vi um lenço, uma caixa de pó-de-arroz, um porta-moedas; a mulher mergulhou até ao fundo da bolsa a mão de unhas pintadas e tirou de lá uma pequena tesoura doirada. Aproximei-me da janela e contemplei a fachada cinzenta do outro lado da rua. Tinha frio. Não ousei dizer-lhe para passar as tesouras por uma chama.

- Não tenha medo, minha flor.

Eu ouvia a respiração sacudida de Hélène.

- Faça força – disse a velha -, já está. – Chamou por mim: - Senhor!

Voltei-me. Havia uma bacia nas mãos dela. Os dedos, o punho e todo o antebraço dela estavam tão vermelhos como as suas unhas.

- Vá despejar esta bacia.

Hélène estava deitada ao comprido, com os olhos fechados. A sua camisa de noite infantil descobria-lhe os joelhos; por baixo das suas pernas, havia um oleado cheio de algodões ensanguentados. Peguei na bacia, atravessei o patamar, e destapei a tampa da sanita. A bacia estava cheia de sangue e nessa nata vermelha flutuavam grandes pedaços de miolo de vitela. Esvaziei a bacia e puxei o autoclismo. Quando regressei ao quarto, a velha lavava na pia de despejo os algodões vermelhos.

- Dê-me um papel grande – disse ela. – Vou fazer um embrulho com todos esses algodões. Você deita-o depois num esgoto.

- Está tudo bem? – disse eu.

- Sim. Não é nada de grave. Riu: - com certeza que você não está habituado.

Levou as mãos e ajustou o chapéu diante do espelho. Eu voltei a atear o lume, e quando a velha saiu, fui sentar-me ao pé de Hélène."

Simone de Beauvoir in O Sangue dos Outros

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