quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

tenho o quarto, com folhas e livros e fotografias e copos espalhados pelo chão com restos de vinho. uma chávena cheia de beatas. é dificil tão dificil deitar as beatas fora. os dias passam e as semanas passam e tudo passa porque sim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

forever dead and lovely now

foi um verão de pés descalços e mãos magras. mãos que chegavam para te levar de uma só vez à boca como se faz aos frutos suculentos.




(...)

He had a bullet proof smile
He had money to burn
She thought she had the moon
In her pocket

But now she's dead
She's so dead
Forever dead and lovely now

I've always been told to
Remember this...
Don't let a fool kiss you
Never marry for love

He was hard to impress
He knew everyone's secrets
He wore her on his arm
Just like jewelry

He never gave but he got
He kept her on a leash
He's not the kind of wheel
You fall asleep at

But now she's dead
Forever dead
Forever dead and lovely now

Come closer, look deeper
You've fallen fast
Just like a plane on a
Stormy sea

(...)
Dead and Lovely, Tom Waits
ele tinha
um nariz de sardas,
uns dedos
uma boca,
um cabelo complicado.

ela tinha
um vestido ao sabor das amoras.

depois vieram os anos.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bébé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste

Adília Lopes




Barbara Kruger

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

olha

não é a (in)certeza
de que vamos borbulhar
noutro espaço qualquer
enquanto te escavo por dentro
enquanto me abres para fora.

é
a forma como respiramos
no sono,
de pernas e braços
entrelaçados.
(o cobertor pelas orelhas)
as pontas do nariz
coladas.

"Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...

Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.

Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!"

Carta a Fátima




morreu
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