da janela do meu quarto vejo turistas em sorrisos melosos para as suas maquinas digitais, fazem-se acompanhar por monumentos, igrejas, jardins, ruas
que sinto como minhas.
depois de dois meses, o coração é-me percorrido por calles de nomes peculiares.
como silencio, ou espejo.
os grupos imensos de excursões começam a atrapalhar-me o dia a dia e um estranho sentimento de posse, de ciúme subtil espreita pelo ombro.
imagino cá por dentro em quantas fotos estarei, passeando distraída na minha vida, como recuerdo turístico de uma pequena viagem a Salamanca.
mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão
quarta-feira, 2 de novembro de 2005
segunda-feira, 24 de outubro de 2005
Lembro-me da primeira vez que vi a Laica.
Iamos jantar ao Saraiva.
Fui a casa da Vera pedir uma cassete de video para gravar o ultimo episódio da novela. Do nome da telenovela já não recordo mas, quando voltei a casa (mais a dita cassete) o “Não mexas nessa cadela que tem imensas pulgas”, ficou gravado na mente.
É claro que o hábito de dar festas a qualquer cão de rua já estava à flor da pele na júlia de 10 anos, por isso tomei a liberdade de me apaixonar um bocadinho pela cadela e pelas suas pulgas.
Os dias passaram e começou a rondar a casa, eu de um lado e a minha irmã do outro procuravamos revirar os “Não quero cães cá em casa” da minha mãe e os tempos começavam a mudar enquanto o meu pai entre sorrisos dizia “Tem mesmo cara de Laica”.
Acabou por ficar.
Laica.
No inicio tinha medo de vassouras. Da voz grave do meu pai.
Vinha com marcas de arame farpado na barriga e aproximava-se das pessoas com muito medo. Era total e completamente carente de meiguice. Roçava-se toda lampeira nas nossas pernas como se fosse um gato e em horas calmas encostava carinhosamente o focinho com os olhos fechados.
Suspeitámos que tivesse sido abandonada por caçadores por fugir aterrorizada de todo o barulho que se assemelhasse a tiros e tentava apanhar gatos, pássaros, lagartos, galinhas (e por aí fora). Na verdade, o meu pai dexou de poder ter descanço já que a “rebelde” descobria, ao longo do tempo, novas formas de entrar no galinheiro. Encontrar a Senhora Laica roendo vedações e escavando túneis passou a ser o “pão nosso de cada dia”.
A primeira vez que saímos de casa enfiou-se no porta bagagens com medo de a deixarmos para trás. Foi uma carga de trabalhos para a tirar, já que uma vez que conseguíamos voltava a saltar lá para dentro.
Passou desde esse momento a ladrar aflitivamente quando saíamos de casa no carro.
Desenvolveu uma série de hábitos esquisitos, como uma estranha fixação por lenços ranhosos. Uma pessoa NÃO PODIA, assoar-se a frente da laica. Ela pura e simplesmente amandava-se ao lenço e comia-o. O mesmo acontecia com gelados (o que pensando bem nunca foi muito esquisito).
Tinha um medo terrivel da água e dar-lhe banho no inicio era deveras complicado, já que se recusava a “acompanhar-nos” até à mangueira. Do momento que saímos pela porta pressentia o duche iminente e lá andávamos nós pelo quintal a correr atrás da senhora arraçada a galgo (dá para imaginar o que corria).
Desde o inicio as regras estabelecidas pelo meu pai eram simples: cães fora de casa.
Isso claro não impedia a Laica de se enfiar pelas pernas de quem entrava em casa e desaparecer algures pela cama dos meus pais. Ao longo do tempo, cada vez que “forçava entrada”, escondia-se para não a encontrarmos. É claro que tanto o meu coração como o da minha irmã não aguentaram tais demonstrações de carinho e enfiávamo-la nas frias noites de Inverno em casa, bem juntinho a lareira que era onde dormíamos quando estava mais frio. Isto claro, sem o conhecimento dos pais...
Laica. Tanto por contar.
O amor por ovos crus, o comer uvas da árvore, o aninhar-se nos sofás, os cachorrinhos lindos, lindos que teve, a dificuldade em se sentar após a laqueação, as fugidelas pelo portão, a teimosia, a rebeldia...
Continuou durante anos a ladrar aflitivamente cada vez que saíamos no carro.
Parou de o fazer quando ficou doente.
Passou a ter grande dificuldade em andar. Tropeçava nas próprias patas e por vezes não continha a urina. No veterinário a amargura de não a poder salvar.
Quis ficar com ela até ao fim, em que lhe deram a injecção.
Chorei mais que a alma.
Chorei as brincadeiras, e os carinhos, as lambidelas, a inocência dos seus olhos, chorei a raiva, a tristeza, e mais que tudo. Chorei a saudade.
Soará eternamente na minha cabeça o eco surdo do focinho caído na mesa de observação. Os olhos abertos
inexpressivos.
a voz da veterinária
“já está”.
Iamos jantar ao Saraiva.
Fui a casa da Vera pedir uma cassete de video para gravar o ultimo episódio da novela. Do nome da telenovela já não recordo mas, quando voltei a casa (mais a dita cassete) o “Não mexas nessa cadela que tem imensas pulgas”, ficou gravado na mente.
É claro que o hábito de dar festas a qualquer cão de rua já estava à flor da pele na júlia de 10 anos, por isso tomei a liberdade de me apaixonar um bocadinho pela cadela e pelas suas pulgas.
Os dias passaram e começou a rondar a casa, eu de um lado e a minha irmã do outro procuravamos revirar os “Não quero cães cá em casa” da minha mãe e os tempos começavam a mudar enquanto o meu pai entre sorrisos dizia “Tem mesmo cara de Laica”.
Acabou por ficar.
Laica.
No inicio tinha medo de vassouras. Da voz grave do meu pai.
Vinha com marcas de arame farpado na barriga e aproximava-se das pessoas com muito medo. Era total e completamente carente de meiguice. Roçava-se toda lampeira nas nossas pernas como se fosse um gato e em horas calmas encostava carinhosamente o focinho com os olhos fechados.
Suspeitámos que tivesse sido abandonada por caçadores por fugir aterrorizada de todo o barulho que se assemelhasse a tiros e tentava apanhar gatos, pássaros, lagartos, galinhas (e por aí fora). Na verdade, o meu pai dexou de poder ter descanço já que a “rebelde” descobria, ao longo do tempo, novas formas de entrar no galinheiro. Encontrar a Senhora Laica roendo vedações e escavando túneis passou a ser o “pão nosso de cada dia”.
A primeira vez que saímos de casa enfiou-se no porta bagagens com medo de a deixarmos para trás. Foi uma carga de trabalhos para a tirar, já que uma vez que conseguíamos voltava a saltar lá para dentro.
Passou desde esse momento a ladrar aflitivamente quando saíamos de casa no carro.
Desenvolveu uma série de hábitos esquisitos, como uma estranha fixação por lenços ranhosos. Uma pessoa NÃO PODIA, assoar-se a frente da laica. Ela pura e simplesmente amandava-se ao lenço e comia-o. O mesmo acontecia com gelados (o que pensando bem nunca foi muito esquisito).
Tinha um medo terrivel da água e dar-lhe banho no inicio era deveras complicado, já que se recusava a “acompanhar-nos” até à mangueira. Do momento que saímos pela porta pressentia o duche iminente e lá andávamos nós pelo quintal a correr atrás da senhora arraçada a galgo (dá para imaginar o que corria).
Desde o inicio as regras estabelecidas pelo meu pai eram simples: cães fora de casa.
Isso claro não impedia a Laica de se enfiar pelas pernas de quem entrava em casa e desaparecer algures pela cama dos meus pais. Ao longo do tempo, cada vez que “forçava entrada”, escondia-se para não a encontrarmos. É claro que tanto o meu coração como o da minha irmã não aguentaram tais demonstrações de carinho e enfiávamo-la nas frias noites de Inverno em casa, bem juntinho a lareira que era onde dormíamos quando estava mais frio. Isto claro, sem o conhecimento dos pais...
Laica. Tanto por contar.
O amor por ovos crus, o comer uvas da árvore, o aninhar-se nos sofás, os cachorrinhos lindos, lindos que teve, a dificuldade em se sentar após a laqueação, as fugidelas pelo portão, a teimosia, a rebeldia...
Continuou durante anos a ladrar aflitivamente cada vez que saíamos no carro.
Parou de o fazer quando ficou doente.
Passou a ter grande dificuldade em andar. Tropeçava nas próprias patas e por vezes não continha a urina. No veterinário a amargura de não a poder salvar.
Quis ficar com ela até ao fim, em que lhe deram a injecção.
Chorei mais que a alma.
Chorei as brincadeiras, e os carinhos, as lambidelas, a inocência dos seus olhos, chorei a raiva, a tristeza, e mais que tudo. Chorei a saudade.
Soará eternamente na minha cabeça o eco surdo do focinho caído na mesa de observação. Os olhos abertos
inexpressivos.
a voz da veterinária
“já está”.

sábado, 8 de outubro de 2005
quinta-feira, 25 de agosto de 2005
chegou o momento de parar.
preciso de lucidez e os pensamentos escapam numa velocidade impossivel.
assim não quero, o repentino não enche medidas
“Instant soup doesn't really grab me
Today I need something more sub-sub-sub-substantial”.
quero agarrar as ideias com força. uma a uma. em cada mão
sujar os dedos com frases decompostas
analiza-las nos mais diversos sentidos
perceber o que significam, onde me conduzem, que consequências impõem. encarar de frente. com toda a calma que isso exige.
fazer um scrabble infinito e construir puzzles monstruosos de posições e afirmações
pesar obsessivamente todas as letrinhas
apertar-lhes os gasganetes e sufoca-las até à exaustão se for preciso.
chega de vertigens
de carroceis que andam à roda, à roda, à roda
...acabam por nunca parar no mesmo sitio.
pela primeira vez na vida quero fazer experiências necessárias.
não errar.
entrar num laboratório e esmigalhar o meu corpo num tubo de ensaio
ver à lupa. ao microscópio.
vestir luvas de borracha e ter o prazer mórbido de me desmembrar
ser nua.
no triste sentido da palavra (da minha palavra)
descoberta, desfeita, despedaçada
hoje talvez seja uma pinça
ou um bisturi
talvez seja.
preciso de lucidez e os pensamentos escapam numa velocidade impossivel.
assim não quero, o repentino não enche medidas
“Instant soup doesn't really grab me
Today I need something more sub-sub-sub-substantial”.
quero agarrar as ideias com força. uma a uma. em cada mão
sujar os dedos com frases decompostas
analiza-las nos mais diversos sentidos
perceber o que significam, onde me conduzem, que consequências impõem. encarar de frente. com toda a calma que isso exige.
fazer um scrabble infinito e construir puzzles monstruosos de posições e afirmações
pesar obsessivamente todas as letrinhas
apertar-lhes os gasganetes e sufoca-las até à exaustão se for preciso.
chega de vertigens
de carroceis que andam à roda, à roda, à roda
...acabam por nunca parar no mesmo sitio.
pela primeira vez na vida quero fazer experiências necessárias.
não errar.
entrar num laboratório e esmigalhar o meu corpo num tubo de ensaio
ver à lupa. ao microscópio.
vestir luvas de borracha e ter o prazer mórbido de me desmembrar
ser nua.
no triste sentido da palavra (da minha palavra)
descoberta, desfeita, despedaçada
hoje talvez seja uma pinça
ou um bisturi
talvez seja.
terça-feira, 23 de agosto de 2005
sexta-feira, 12 de agosto de 2005
quarta-feira, 3 de agosto de 2005
sexta-feira, 29 de julho de 2005
domingo, 17 de julho de 2005
há qualquer coisa de Outono que não sai do pensamento, qualquer coisa de suspiro, de desassossego, de te ver chegar com aquele sorriso.
aquele sorriso.
o carinho, a ternura que já não se vê nos olhares da rua,
uma falta, vertigem de meiguice , espiral de desejos,
sentir o coração tão imenso prestes a derramar do peito. Não querer morrer, mas mais importante não querer que morras. Inventar-te feliz ainda que longe, sem os olhares extintos e vidas dissolvidas (mesmo antes de começarem).
andar aos círculos para voltar ao mesmo abraço, e querer, querer. qualquer coisa de folhas de Outono,
percebes?
aquele sorriso.
o carinho, a ternura que já não se vê nos olhares da rua,
uma falta, vertigem de meiguice , espiral de desejos,
sentir o coração tão imenso prestes a derramar do peito. Não querer morrer, mas mais importante não querer que morras. Inventar-te feliz ainda que longe, sem os olhares extintos e vidas dissolvidas (mesmo antes de começarem).
andar aos círculos para voltar ao mesmo abraço, e querer, querer. qualquer coisa de folhas de Outono,
percebes?
quinta-feira, 14 de julho de 2005
segunda-feira, 4 de julho de 2005
sábado, 2 de julho de 2005
quinta-feira, 23 de junho de 2005
terça-feira, 21 de junho de 2005
segunda-feira, 20 de junho de 2005
segunda-feira, 6 de junho de 2005
terça-feira, 31 de maio de 2005
E mais não posso concordar.
“Como dizia o poeta”
Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão
Vinicius de Moraes
“Como dizia o poeta”
Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não
Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer
Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão
Vinicius de Moraes
segunda-feira, 23 de maio de 2005
sexta-feira, 13 de maio de 2005
todays mood
Here comes the sun, here comes the sun,
and I say it's all right.
Little darling, it's been a long cold lonely winter
Little darling, it feels like years since it's been here
Here comes the sun, here comes the sun
and I say it's all right.
Little darling, the smiles returning to the faces
Little darling, it seems like years since it's been here
Here comes the sun, here comes the sun
and I say it's all right.
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Little darling, I feel that ice is slowly melting
Little darling, it seems like years since it's been clear
Here comes the sun, here comes the sun,
and I say it's all right
It's all right.
George Harrison
The Beatles - Abbey Road

Here comes the sun, here comes the sun,
and I say it's all right.
Little darling, it's been a long cold lonely winter
Little darling, it feels like years since it's been here
Here comes the sun, here comes the sun
and I say it's all right.
Little darling, the smiles returning to the faces
Little darling, it seems like years since it's been here
Here comes the sun, here comes the sun
and I say it's all right.
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Sun, sun, sun, here it comes...
Little darling, I feel that ice is slowly melting
Little darling, it seems like years since it's been clear
Here comes the sun, here comes the sun,
and I say it's all right
It's all right.
George Harrison
The Beatles - Abbey Road
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