sexta-feira, 16 de março de 2007


A. Skirdov

no cansaço um desejo oco de lhe asfixiar o silêncio
de lhe amarrotar a boca com os quilómetros de palavras que trago esmagadas no corpo.

... acontece que estou derrotada

entre noites mal dormidas e o fumo que ele expulsa de dentro
com os olhos apagados
no tecto.




domingo, 4 de março de 2007

passam as semanas e desmorono no domingo.


Kurt Halsey

"
Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca." (...)

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 2 de março de 2007

argh...!

(...) "fala-se de si, alguém fala de si, é isso, no singular, um só, o preposto, ele, eu, pouco importa, o preposto fala de si, não é isso, de outrem, também não, ele sabe lá, como poderia saber se falou disso ou não, ao falar de si, ao falar de outrem, ao falar das coisas, que outrem, que coisas, o preposto, ao falar de si, sou eu, falando de mim, tenho de falar dele, só posso falar de mim, também não, não posso falar de nada, mas falo, talvez fale dele, nunca saberei, como poderia saber, quem poderia saber, quem sabendo-o poderia dizer-me, não sei de quem se trata, é tudo o que sei, não, devo saber outra coisa, devem ter-me ensinado coisas, trata-se dele que não sabe nada, não quer nada, não pode nada, se não querendo nada se pode não poder nada, que não pode falar nem ouvir, que é eu, que não pode ser eu, de quem não posso falar, de quem tenho de falar" (....)
O inominável, Samuel Beckett

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Há pessoas que são portas fechadas. Não, não, mais que fechadas.

São portas acorrentadas. Com um cadeado gigante. Queimadas pela ferrugem, na espera das horas. Talvez por ser, também eu, velha como as cismas me aninhe nestas portas com um par de ganchos toscos e uma garrafinha de óleo. Deixo-me ficar, disposta a remendar os vultos inacabados que espreito apetitosamente através da fechadura. Tendo, no entanto, consciência de que os ganchos cansados com o tempo se partem. Que em cadeados incompletos encaixam chaves incompletas.

E eu não tenho chave para dar.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007


O meu corpo não é meu. Tão pouco chega a corpo. É um mapa de encruzilhadas que vou decepando com alguma pena. Ando tão entretida na pele que esqueço a (in)certeza.

ele.

trilho pequenos carreiros e espero, impaciente, as crostas.



n.





segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

os minutos em anos, os anos em pedra.
acordei de braços vazios e podia jurar que ainda estavas aqui.


Kent Williams

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

a pequena história do beijo que nasceu acabado


Dave Mckean


"A uma luz perigosa como água

De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência 
Nua nos meus braços
 
 
Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos"

Alexandre O´Neill

sábado, 3 de fevereiro de 2007


Nicoletta Tomas


Vou enrolando fios do teu cabelo nos dedos das mãos, não sei porquê.
tenho o corpo esburacado pela acidez da ausência e pouco me importa se mascaro horas mortas com a recordação obtusa de conchas salgadas.

O silencio corta no espelho.

a polpa dos lábios carnudos. os dedos inseguros, esgotados, pela simplicidade do ventre. a vertigem cega da saliva na pele. a nudez, a abafada sufocante húmida nudez.
devoro impaciente as sobras da tua ternura.

que faço do meu corpo desabitado, agora que não te tenho?

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007


natalie dee

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Sim

Paula Rego

"Gostava de chocolates e de bicicletas, avançava pela vida com uma audácia pueril. E eis que estava ali deitada, no meio do seu sangue vermelho de mulher, e a sua juventude e a sua alegria derramavam-se-lhe do ventre num gorgolejar obsceno.

- Então, minha flor, o que é que não vai bem? – disse a velha.

Olhei para ela com inquietação. Uma abortadeira. Parecia-se de tal maneira com o que realmente era que o seu aspecto não chegava a ser real. Estava vestida de preto, tinha os cabelos loiros, as bochechas flácidas, cor de rosa e brancas, e uma boca pintada de cor de laranja; os olhos eram os olhos de uma velha, muito pálidos, pestanejantes e um pouco remelosos. Veria ao menos bem? Adivinhava-se por baixo da pintura do rosto uma carne mal lavada. Olhei as duas mãos de unhas pintadas. Uma pessoa segura. Levantou os lençóis e eu virei as costas. Um cheiro pesado e baço encheu o quarto.

- Ainda não saiu – disse ela. – Fez bem em chamar-me. Vou ajudá-la. Isto vai ficar pronto num instante.

- Vai passar? – disse Hélène.

- Num instante.

- Está tudo bem? – disse eu.

- Com certeza. – A mulher começou a rir: - Você parecia tão transtornado que eu esperava o pior. Meu Deus! Parece que nunca viu nada. Eu ouvia-a remexer nas minhas costas: - Onde está o meu saco? É triste envelhecer; já não vejo nada a três passos de mim.

- Aqui o tem. – disse eu

Ela pegou no saco preto, abriu-o; vi um lenço, uma caixa de pó-de-arroz, um porta-moedas; a mulher mergulhou até ao fundo da bolsa a mão de unhas pintadas e tirou de lá uma pequena tesoura doirada. Aproximei-me da janela e contemplei a fachada cinzenta do outro lado da rua. Tinha frio. Não ousei dizer-lhe para passar as tesouras por uma chama.

- Não tenha medo, minha flor.

Eu ouvia a respiração sacudida de Hélène.

- Faça força – disse a velha -, já está. – Chamou por mim: - Senhor!

Voltei-me. Havia uma bacia nas mãos dela. Os dedos, o punho e todo o antebraço dela estavam tão vermelhos como as suas unhas.

- Vá despejar esta bacia.

Hélène estava deitada ao comprido, com os olhos fechados. A sua camisa de noite infantil descobria-lhe os joelhos; por baixo das suas pernas, havia um oleado cheio de algodões ensanguentados. Peguei na bacia, atravessei o patamar, e destapei a tampa da sanita. A bacia estava cheia de sangue e nessa nata vermelha flutuavam grandes pedaços de miolo de vitela. Esvaziei a bacia e puxei o autoclismo. Quando regressei ao quarto, a velha lavava na pia de despejo os algodões vermelhos.

- Dê-me um papel grande – disse ela. – Vou fazer um embrulho com todos esses algodões. Você deita-o depois num esgoto.

- Está tudo bem? – disse eu.

- Sim. Não é nada de grave. Riu: - com certeza que você não está habituado.

Levou as mãos e ajustou o chapéu diante do espelho. Eu voltei a atear o lume, e quando a velha saiu, fui sentar-me ao pé de Hélène."

Simone de Beauvoir in O Sangue dos Outros

domingo, 21 de janeiro de 2007

"Sometimes a woman's heart has salt,
Or too much blood;
I tear her breast,
And see the blood is mine,
Flowing from her, but mine,
And then I think
Perhaps the sky's too bright"
Dylan Thomas


Guayasamin






Subo,

com o estrondo ensurdecedor da casa vazia

mordo o lábio ao abrir a porta e entro.

o corpo desmorona em soluços pelo soalho.

sou um naco de carne, eu sei. Repito alto. Eu sei. Eu sei.

vou apodrecendo nos dias


mas às vezes sou estúpida o suficiente

e acredito que

Estúpida.


"Pin my arm to the wall
Now I'm too gone to fight"

sábado, 13 de janeiro de 2007

Nas horas fáceis descasco tangerinas com as mãos e devaneio pelos cantos da casa com rostos de desconhecidos acorrentados aos olhos.
Abrem-se (-me) os sonhos como frutos maduros.
o meu corpo que nem para amar serve


Maya Kulenovic

"O tempo rói-me a pele e os músculos. Rói-me os ossos. Secretamente infiltra-se nas veias e bate misturado no sangue."
Centeno

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

"Agarramo-nos e não ficamos presos a ninguém e a nada."
Y.K. Centeno

"Estávamos os dois parados sem falar e de repente o tempo condensou-se entre nós palpável como um nevoeiro que foi endurecendo até ficar igual a uma parede branca de cimento. Não dizíamos nada porque não havia nada a dizer e o tempo ficou ali entre nós de pé muito direito como um estranho que não nos tivesse sido apresentado e que por isso mesmo não podia meter-se na conversa."
Y.K. Centeno

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

"As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos. Estás inteiro e depois estás fracturado, aberto. Ela foi um corpo estranho introduzido na tua totalidade. E durante um ano e meio lutaste para o incorporar. Mas nunca serás inteiro enquanto não o expelires. Ou te livras dele ou o incorporas através da autodeformação. "
P. Roth

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

os dias fracos


preencho as gotas no chuveiro e escoo pelo ralo.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

"Will you marry me when you are seventy and have nothing to lose?"


Kent Williams

domingo, 3 de dezembro de 2006

a mala à espera de se transportar para o autocarro, os dossiers de se lerem até amanhã, a chuva à espera de ser encharcada, as botas de serem calçadas, o cachecol fora do pescoço,
e eu
eu esquecida na cama entre almofadas e ritmos tristes.



"I was getting ready to be a threat

I was getting set for my

accidental suicide

the kind where no one dies

no one looks too surprised

then you realize

that you're riding on a para-success

of a heavy-handed metaphor

and a feeling like you've been here before

because you've been here before

and you've been here before

then a word washed ashore

a word washed ashore

then a word washed ashore "

Andrew Bird
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