segunda-feira, 4 de junho de 2007

o rapaz que se encostava
e deixava a intimidade respirar


Tom Chambers

"Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável."


Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 28 de maio de 2007

quinta-feira, 17 de maio de 2007

"llevo los ojos abiertos.
no te veo."

"Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento"




Kurt Halsey




Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava."


Rui Pires Cabral

terça-feira, 8 de maio de 2007

Pauso na respiração para não entornar a desordem de sentimentos que cultivei. Cultivei?
Um passo de cada vez.


Lavo os copos.

Despejo as beatas.

Disperso um ultimo olhar pelo quarto sem segurar vestígios.

Evito os jeitos do edredão. A recriminação das almofadas.

Mastigo o que tenho de fazer, afasto o que tinha para pensar.

Não quero chegar à conclusão de que fui abandonada

por ele e pelos dias.





(Estou dobrada do avesso na mala do quarto e aqui ficarei até me acordares)

quarta-feira, 25 de abril de 2007


Van Gogh


três da tarde e

fogem no ar bocados de primavera.

deixo-me rodopiar descalça numa saia de verão.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Tenho memórias, tantas memórias

entrelaçadas

em círculos de arame farpado.


Se por vezes me trespassam

suspendo a respiração

de mansinho

num sorriso arranhado

e deixo magoar .
















boom

quarta-feira, 18 de abril de 2007

hoje estou em forma de

trigo e bocejo
água mineral

"Hold me now,
I'm hoping that you can explain
Little Arithmetics"

escapam

alguns traços desmaiados na monotonia do braço esquerdo.

para já, pelo menos. Por isso,

ele que pare de agir como se ainda habitasse o meu corpo.

segunda-feira, 9 de abril de 2007


Egon Schiele

Há princípio de luz

nos olhos,

e a quietude das coisas

destapa o silêncio

nos ramos cansados.


Tenho um despertar

na pontinha dos dedos

e a manhã dissolvida

no sabor de uma ameixa.






rasgou-se o dia em forma de sorriso.



domingo, 8 de abril de 2007

"i can't be the lighter


Lilya Corneli
just in case you never knew"

sexta-feira, 30 de março de 2007

a pele dele chegou fácil e sem aviso como uma sexta-feira

"your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers"

e. e. cumming

sábado, 24 de março de 2007

faltas





"falta aqui tudo o que amámos juntos,

o teu sorriso com as ruas dentro,

o secreto rumor das tuas veias

abrindo sulcos de palavras fundas

no rosto da noite inesperada.

Falta sobretudo à roda dos teus olhos

a pura ressonância da alegria.


Lembro-me de uma noite em que ficámos nus

para embalar um beijo ou uma lágrima.

Lutando, de mãos cortadas, até romper o dia,

largo, intacto,

nas pálpebras molhadas dos lírios.


Tu não eras ainda este perfil"


(...)
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de março de 2007

o verde das folhas foge no vento
e os pensamentos enganam contra a janela:

ainda não aprendi a forma segura de quebrar por isso vou-me detendo
devagarinho.
É que tenho por dentro muitos nós e um céu excessivamente parado.
E no canto dos lábios um pássaro com vícios impossíveis.
gomos do corpo dele.

sexta-feira, 16 de março de 2007


A. Skirdov

no cansaço um desejo oco de lhe asfixiar o silêncio
de lhe amarrotar a boca com os quilómetros de palavras que trago esmagadas no corpo.

... acontece que estou derrotada

entre noites mal dormidas e o fumo que ele expulsa de dentro
com os olhos apagados
no tecto.




domingo, 4 de março de 2007

passam as semanas e desmorono no domingo.


Kurt Halsey

"
Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca." (...)

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 2 de março de 2007

argh...!

(...) "fala-se de si, alguém fala de si, é isso, no singular, um só, o preposto, ele, eu, pouco importa, o preposto fala de si, não é isso, de outrem, também não, ele sabe lá, como poderia saber se falou disso ou não, ao falar de si, ao falar de outrem, ao falar das coisas, que outrem, que coisas, o preposto, ao falar de si, sou eu, falando de mim, tenho de falar dele, só posso falar de mim, também não, não posso falar de nada, mas falo, talvez fale dele, nunca saberei, como poderia saber, quem poderia saber, quem sabendo-o poderia dizer-me, não sei de quem se trata, é tudo o que sei, não, devo saber outra coisa, devem ter-me ensinado coisas, trata-se dele que não sabe nada, não quer nada, não pode nada, se não querendo nada se pode não poder nada, que não pode falar nem ouvir, que é eu, que não pode ser eu, de quem não posso falar, de quem tenho de falar" (....)
O inominável, Samuel Beckett

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Há pessoas que são portas fechadas. Não, não, mais que fechadas.

São portas acorrentadas. Com um cadeado gigante. Queimadas pela ferrugem, na espera das horas. Talvez por ser, também eu, velha como as cismas me aninhe nestas portas com um par de ganchos toscos e uma garrafinha de óleo. Deixo-me ficar, disposta a remendar os vultos inacabados que espreito apetitosamente através da fechadura. Tendo, no entanto, consciência de que os ganchos cansados com o tempo se partem. Que em cadeados incompletos encaixam chaves incompletas.

E eu não tenho chave para dar.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007


O meu corpo não é meu. Tão pouco chega a corpo. É um mapa de encruzilhadas que vou decepando com alguma pena. Ando tão entretida na pele que esqueço a (in)certeza.

ele.

trilho pequenos carreiros e espero, impaciente, as crostas.



n.





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