terça-feira, 8 de janeiro de 2008


"Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...

Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.

Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!"

Carta a Fátima




morreu

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

a espessura da pele verte quando o desespero espera
e os dedos entristecem a tentar
agarrar o ar,
há tanto ar
que foge.

sábado, 22 de dezembro de 2007


Gottfried Heinwein




Gottfried Heinwein

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

desaparecem pelo ralo mãos cheias de cabelo.

é da estação, dizem.

dizem que é da estação no outono,
dizem que é da estação no inverno,
dizem que é da estação na primavera,
dizem que é da estação no verão.

eu finjo que sim
e sorrio.



Gottfried Helnwein

sábado, 8 de dezembro de 2007

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar

Paulo Leminski

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

mh

ver os amigos de infância desatar a crescer, fazer filhos e conduzir carros

(não necessariamente por esta ordem)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007


Egon Schiele


self etcetera lay quietly
in the deep mud et

cetera
(dreaming,

et

cetera, of

Your smile
eyes knees and of your Etcetera)

ee cummings


:)

sábado, 17 de novembro de 2007

e pergunto à larva se dói tecer o casulo


Paul Klee



quarta-feira, 14 de novembro de 2007

e de repente é preciso muita força
para escovar os dentes
e a imagem no espelho torna-se ridicula
triste
de palhaço,
com os olhos vermelhos
os lábios brancos
os riscos transparentes
pela cara fora

terça-feira, 6 de novembro de 2007

dar de mim aos astros

"Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda"

Adília Lopes
desfaz-se o azul na estratosfera.
e vive-se a vida de todos os dias com o corpo. a pele vai estalando.

por isso,
é fácil viver de madrugada e fácil
plantar abismos por dentro dos olhos,
repito:
os anos tendem a passar.



sexta-feira, 2 de novembro de 2007

o elevador cheirava a castanhas.
desde que chegou o frio anoitece cedo e o autocarro pesa nos ossos. as tardes no entanto continuam quentes. e é engraçado como as cartas-que-não-são-cartas dele tendem a chegar à tarde. quero dizer, a (acon)chegar-me à tarde.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

coin-operated joy

pedaços do oriente - 3



let me tell you about the wonder of plastic existence



it doesn't feel



sexta-feira, 26 de outubro de 2007









daqui

domingo, 21 de outubro de 2007

sobre o sol de domingo e uma preguiça de louça para lavar

bocejo bocejar bocejando
espreguiço espreguiçar espreguiçando



quinta-feira, 18 de outubro de 2007

my fantasy for the birthday boy


Cinco horas e treze minutos. O tempo esmorece com o fechar da porta. A rua voa e eles têm o silêncio. O silêncio deles.
Bocadinhos de poeira contrariam o sol enquanto a doçura espreita num sorriso demorado.
As mãos envolvem o pescoço.
A respiração pesa.
No corpo há séculos de espaço.
Ela tem medo do olhar dele que entra muito dentro,
ele expira devagar o cigarro.

O mundo pára.

domingo, 14 de outubro de 2007


Ruang rak noi nid mahasan



qualquer coisa de conteúdo:
há a casa vazia com um saco desfeito na sala,
uma pulseira enforcada no pulso.
pulso esquerdo.
Cheguei a casa com uma palavra entalada no olho, que esfreguei e esfreguei mas não saiu. Digo de mim para mim que envelhecer em sacos de plástico acontece. Que é normal enfiar bocados do corpo em caixas de cartão. Que faz sentido devolver memórias como quem devolve roupa nos centros comerciais.
Mas não.
Não.
Estou encalhada na primeira pessoa, é um problema.
mas agarro-me e tenho-me e sou. pela primeira vez em anos
sou. isso é bom.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

pedaços do oriente - 2



quarta-feira, 26 de setembro de 2007

pedaços do oriente - 1





terça-feira, 25 de setembro de 2007

... porque sou desordenada, mas não esqueço, nunca esqueço (beijinho especial ao nils) :)

tinha vários livros aglomerados secretária acima. o de cima, esse: "Confronting child abuse: Research for effective program design" de Deborah Daro.
A quinta frase (sem contar com a primeira que vem incompleta da página anterior) diz "In order to project the total social savings realized through permanency planning, we must accurately assess the ability of child welfare services to offer protection to children in the absence of placement and to correctly determine when at least temporary placement is the most appropriate course of treatment."

Deixo para cinco visitantes que queiram partilhar dos seus livros:

O Regulamento
1. Pegar no livro mais próximo.
2. Abri-lo na página 161.
3. Procurar a 5.ª frase completa.
4. Colocar a frase no blogue.
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo.
6. Passar o desafio a cinco pessoas.
Web Pages referring to this page
Link to this page and get a link back!