mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
domingo, 13 de janeiro de 2008
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bébé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste
Adília Lopes

Barbara Kruger
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
"Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...
Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.
Carta a Fátima

morreu
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
sábado, 22 de dezembro de 2007
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
é da estação, dizem.
dizem que é da estação no outono,
dizem que é da estação no inverno,
dizem que é da estação na primavera,
dizem que é da estação no verão.
eu finjo que sim
e sorrio.

Gottfried Helnwein
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Egon Schiele
self etcetera lay quietly
in the deep mud et
cetera
(dreaming,
et
cetera, of
Your smile
eyes knees and of your Etcetera)
ee cummings
:)
sábado, 17 de novembro de 2007
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
terça-feira, 6 de novembro de 2007
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
terça-feira, 30 de outubro de 2007
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
domingo, 21 de outubro de 2007
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Bocadinhos de poeira contrariam o sol enquanto a doçura espreita num sorriso demorado.
As mãos envolvem o pescoço.
A respiração pesa.
No corpo há séculos de espaço.
Ela tem medo do olhar dele que entra muito dentro,
ele expira devagar o cigarro.
O mundo pára.
domingo, 14 de outubro de 2007
Ruang rak noi nid mahasan
qualquer coisa de conteúdo:
há a casa vazia com um saco desfeito na sala,
uma pulseira enforcada no pulso.
pulso esquerdo.
Cheguei a casa com uma palavra entalada no olho, que esfreguei e esfreguei mas não saiu. Digo de mim para mim que envelhecer em sacos de plástico acontece. Que é normal enfiar bocados do corpo em caixas de cartão. Que faz sentido devolver memórias como quem devolve roupa nos centros comerciais.
Mas não.
Não.
Estou encalhada na primeira pessoa, é um problema.
mas agarro-me e tenho-me e sou. pela primeira vez em anos
sou. isso é bom.












