sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

so affections fade away and do adults just learn to play the most ridiculous repulsive games? *

o prazer denso do nevoeiro afasta as certezas por isso deixo-me tropeçar no limbo quântico.
fecho os olhos a contra-gotas. distorço a geometria da cara. porque

uma partícula (...) não pode ter uma posição definida e uma velocidade definida; uma partícula não pode ter um spin definido (horário ou anti-horário) ao longo de mais de um eixo; uma partícula não pode ter simultaneamente atributos definidos para coisas que estão em lados opostos do fosso da incerteza*


* Turn on me, The Shins
* O Tecido do Cosmos, Brian Greene

domingo, 3 de fevereiro de 2008


Ellen Lanyon

o chão de casa está limpo e as chávenas vazias. vejo-me de casacos e sapatos, quadrada como as malas. que dizia? que dizias?
digo. voltas?
tenho um carrocel suspenso por veias e é costume cortar as veias com uma tesourinha que guardo na casa de banho. gira-giras no meu sangue amargo e é possível que te deixe cair, não te quero partir e eu sem querer que.
partiste.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

tenho o quarto, com folhas e livros e fotografias e copos espalhados pelo chão com restos de vinho. uma chávena cheia de beatas. é dificil tão dificil deitar as beatas fora. os dias passam e as semanas passam e tudo passa porque sim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

forever dead and lovely now

foi um verão de pés descalços e mãos magras. mãos que chegavam para te levar de uma só vez à boca como se faz aos frutos suculentos.




(...)

He had a bullet proof smile
He had money to burn
She thought she had the moon
In her pocket

But now she's dead
She's so dead
Forever dead and lovely now

I've always been told to
Remember this...
Don't let a fool kiss you
Never marry for love

He was hard to impress
He knew everyone's secrets
He wore her on his arm
Just like jewelry

He never gave but he got
He kept her on a leash
He's not the kind of wheel
You fall asleep at

But now she's dead
Forever dead
Forever dead and lovely now

Come closer, look deeper
You've fallen fast
Just like a plane on a
Stormy sea

(...)
Dead and Lovely, Tom Waits
ele tinha
um nariz de sardas,
uns dedos
uma boca,
um cabelo complicado.

ela tinha
um vestido ao sabor das amoras.

depois vieram os anos.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bébé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste

Adília Lopes




Barbara Kruger

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

olha

não é a (in)certeza
de que vamos borbulhar
noutro espaço qualquer
enquanto te escavo por dentro
enquanto me abres para fora.

é
a forma como respiramos
no sono,
de pernas e braços
entrelaçados.
(o cobertor pelas orelhas)
as pontas do nariz
coladas.

"Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...

Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.

Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!"

Carta a Fátima




morreu

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

a espessura da pele verte quando o desespero espera
e os dedos entristecem a tentar
agarrar o ar,
há tanto ar
que foge.

sábado, 22 de dezembro de 2007


Gottfried Heinwein




Gottfried Heinwein

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

desaparecem pelo ralo mãos cheias de cabelo.

é da estação, dizem.

dizem que é da estação no outono,
dizem que é da estação no inverno,
dizem que é da estação na primavera,
dizem que é da estação no verão.

eu finjo que sim
e sorrio.



Gottfried Helnwein

sábado, 8 de dezembro de 2007

duas folhas na sandália
o outono
também quer andar

Paulo Leminski

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

mh

ver os amigos de infância desatar a crescer, fazer filhos e conduzir carros

(não necessariamente por esta ordem)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007


Egon Schiele


self etcetera lay quietly
in the deep mud et

cetera
(dreaming,

et

cetera, of

Your smile
eyes knees and of your Etcetera)

ee cummings


:)

sábado, 17 de novembro de 2007

e pergunto à larva se dói tecer o casulo


Paul Klee



quarta-feira, 14 de novembro de 2007

e de repente é preciso muita força
para escovar os dentes
e a imagem no espelho torna-se ridicula
triste
de palhaço,
com os olhos vermelhos
os lábios brancos
os riscos transparentes
pela cara fora

terça-feira, 6 de novembro de 2007

dar de mim aos astros

"Avó Alda de lar da terceira idade
em lar da terceira idade
até morrer
a fugir para a rua
a partir braços
a arranhar a cabo-verdiana
contratada para tomar conta dela
arrancou os anéis dos dedos deformados
e foi pô-los na terra do vaso
da begónia
na varanda"

Adília Lopes
desfaz-se o azul na estratosfera.
e vive-se a vida de todos os dias com o corpo. a pele vai estalando.

por isso,
é fácil viver de madrugada e fácil
plantar abismos por dentro dos olhos,
repito:
os anos tendem a passar.



sexta-feira, 2 de novembro de 2007

o elevador cheirava a castanhas.
desde que chegou o frio anoitece cedo e o autocarro pesa nos ossos. as tardes no entanto continuam quentes. e é engraçado como as cartas-que-não-são-cartas dele tendem a chegar à tarde. quero dizer, a (acon)chegar-me à tarde.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

coin-operated joy

pedaços do oriente - 3



let me tell you about the wonder of plastic existence



it doesn't feel



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