mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão
quinta-feira, 1 de maio de 2008
sábado, 12 de abril de 2008
quarta-feira, 2 de abril de 2008
sexta-feira, 28 de março de 2008
lufa lufa
ontem no santiago alquimista :)
quarta-feira, 19 de março de 2008
deixei de te escrever há algum tempo já. talvez pela mesma altura em que deixaste de me ler.
a verdade é que a necessidade de apoiar o raciocínio na ideia que tens do mundo se diluiu com ausência e por muito que seja, toda eu (de pensamentos, carnes, pêlos, genes e sangue), consequência da tua pessoa és cada vez menos determinante.
aprendi contigo. essencialmente a reparar.
pensar.
quando se cria o vício do pensamento acabamos por questionar tudo.
indispensável lupa, o microscópio virado para dentro de forma a que o sujeito (ele próprio) se veja. porque pai, de pouco serve estar exclusivamente virado para fora. o interior adormece empobrece apodrece. o mesmo se poderia dizer com a vivência exaustiva do interior bloqueando tudo o que é estimulo externo. adormece empobrece apodrece.
por isso, desde que nasci ensinaste a cultivar interesses, aprofundar gostos. pensar por mim, primeiro por mim. enriquecer com o que vem de fora através de um trabalho construtivo de selecção, analisar de forma crítica o que se vai estabelecendo por dentro. ter uma vida, minha. como me ensinaste. minha. não porque é suposto viver, não porque é suposto investir mas porque o quero fazer. há entre ambos umas diferença abismal, diferença reflectida. seria incorrecto permitir que outro o fizesse por mim, ditar uma vida normativa apenas pela obrigatoriedade social equivale a uma cabeçada na parede. ou serão os meus verdes 24? tu o dirás. eu o direi, se aí chegar.
espero que, a cima de tudo, sejas uma pessoa feliz. com a tua vida. que sejas um construto reflectido. que gostes de ti e estejas com quem gosta de ti pelo que és. que te estimes. que te construas. que te reconstruas, se necessário. que valha a pena
que valha sempre a pena
por ti,
para ti.
quarta-feira, 5 de março de 2008

o amor aqui de casa vai secar com as plantas,
porque eu digo. porque eu quero. porque sim.
* David Mourão-Ferreira
* Sipping Water, 2007 (David Hilliard)
domingo, 17 de fevereiro de 2008
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
o prazer denso do nevoeiro afasta as certezas por isso deixo-me tropeçar no limbo quântico.
fecho os olhos a contra-gotas. distorço a geometria da cara. porque
uma partícula (...) não pode ter uma posição definida e uma velocidade definida; uma partícula não pode ter um spin definido (horário ou anti-horário) ao longo de mais de um eixo; uma partícula não pode ter simultaneamente atributos definidos para coisas que estão em lados opostos do fosso da incerteza*
* Turn on me, The Shins
* O Tecido do Cosmos, Brian Greene
domingo, 3 de fevereiro de 2008

Ellen Lanyon
o chão de casa está limpo e as chávenas vazias. vejo-me de casacos e sapatos, quadrada como as malas. que dizia? que dizias?
digo. voltas?
tenho um carrocel suspenso por veias e é costume cortar as veias com uma tesourinha que guardo na casa de banho. gira-giras no meu sangue amargo e é possível que te deixe cair, não te quero partir e eu sem querer que.
partiste.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
foi um verão de pés descalços e mãos magras. mãos que chegavam para te levar de uma só vez à boca como se faz aos frutos suculentos.
(...)
He had a bullet proof smile
He had money to burn
She thought she had the moon
In her pocket
But now she's dead
She's so dead
Forever dead and lovely now
I've always been told to
Remember this...
Don't let a fool kiss you
Never marry for love
He was hard to impress
He knew everyone's secrets
He wore her on his arm
Just like jewelry
He never gave but he got
He kept her on a leash
He's not the kind of wheel
You fall asleep at
But now she's dead
Forever dead
Forever dead and lovely now
Come closer, look deeper
You've fallen fast
Just like a plane on a
Stormy sea
(...)
Dead and Lovely, Tom Waits
domingo, 13 de janeiro de 2008
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bébé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste
Adília Lopes

Barbara Kruger
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
"Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...
Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.
Carta a Fátima

morreu
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
sábado, 22 de dezembro de 2007
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
é da estação, dizem.
dizem que é da estação no outono,
dizem que é da estação no inverno,
dizem que é da estação na primavera,
dizem que é da estação no verão.
eu finjo que sim
e sorrio.

Gottfried Helnwein


