terça-feira, 7 de outubro de 2008

preparing to hibernate





i shall never get you put together entirely,
Pieced, glued, and properly jointed. *




* Sylvia Plath, The Colossus
* Kent Williams (painting)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A hora de despertar enoja-me o estômago. As pessoas formigam na rua com sacos e pressa, mecanizadas quotidiano adentro. O mundo todo é feito de persianas. Arrasto os lençóis pela cozinha e tomo comprimidos, antibióticos, anti-inflamatórios. O cão abana-se na esperança de trela. Suspiro um pedido de desculpas.
Ando a reparar que as palavras cabem menos na garganta.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

colhendo ilusões sucessivas no pomar*




*Miguel Torga
* Egon Schiele


dias de praia com grãos de areia nos olhos e um horizonte de sonhos na mala

sábado, 17 de maio de 2008

Não há na terra lugar nenhum. As raizes apodrecem no corpo. Continuamos a acordar todos os dias à hora em que o despertador não toca. Destapo os lençois com dificuldade e arrasto os chinelos pela casa. Por baixo da água no chuveiro espero que o pó desapareça, e com ele a pele.
Ao longe. "Filha, o corpo não tem raizes na terra" Eu sei mãe.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

eat me *



Julie Blackmon


se a mentira incomoda muita gente a transparência incomoda muito mais





* "oh sugar pie, but i will"

quarta-feira, 7 de maio de 2008

que morte estranha: deram com ela nua, com uma fina agulha de ouro espetada no coração*

*


começo a ter saudades do que não serei




* Buffalo 66
* Os Jardins de Eva, I. K. Centeno

quinta-feira, 1 de maio de 2008

no tempo inseguro dos silêncios puxaste-me à parte para a sobreposição dos beijos. ficámos por descobrir o sentido da consistência orgânica. sei que explodia. e enquanto explodia fazias-te vento e desaparecias.

sábado, 12 de abril de 2008

não há forma original de o sentir dizer ou desenhar
sempre este sítio estúpido de solidão
ajuda a fugir-me

quarta-feira, 2 de abril de 2008

voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração *





* Carlos de Oliveira
* My man, Billie Holiday
arrancar(-lhe) a máscara dabliu cê pato de delicadeza perfumada


The eyes of Stanley Pain, Dave Mckean


estou cansada

sexta-feira, 28 de março de 2008

sobre tirar sapatos rodopiar rodopiar rir sorrir abrir o espaço e dançar



lufa lufa

ontem no santiago alquimista :)

quarta-feira, 19 de março de 2008

dezanove

deixei de te escrever há algum tempo já. talvez pela mesma altura em que deixaste de me ler.
a verdade é que a necessidade de apoiar o raciocínio na ideia que tens do mundo se diluiu com ausência e por muito que seja, toda eu (de pensamentos, carnes, pêlos, genes e sangue), consequência da tua pessoa és cada vez menos determinante.
aprendi contigo. essencialmente a reparar.
pensar.
quando se cria o vício do pensamento acabamos por questionar tudo.
indispensável lupa, o microscópio virado para dentro de forma a que o sujeito (ele próprio) se veja. porque pai, de pouco serve estar exclusivamente virado para fora. o interior adormece empobrece apodrece. o mesmo se poderia dizer com a vivência exaustiva do interior bloqueando tudo o que é estimulo externo. adormece empobrece apodrece.

por isso, desde que nasci ensinaste a cultivar interesses, aprofundar gostos. pensar por mim, primeiro por mim. enriquecer com o que vem de fora através de um trabalho construtivo de selecção, analisar de forma crítica o que se vai estabelecendo por dentro. ter uma vida, minha. como me ensinaste. minha. não porque é suposto viver, não porque é suposto investir mas porque o quero fazer. há entre ambos umas diferença abismal, diferença reflectida. seria incorrecto permitir que outro o fizesse por mim, ditar uma vida normativa apenas pela obrigatoriedade social equivale a uma cabeçada na parede. ou serão os meus verdes 24? tu o dirás. eu o direi, se aí chegar.

espero que, a cima de tudo, sejas uma pessoa feliz. com a tua vida. que sejas um construto reflectido. que gostes de ti e estejas com quem gosta de ti pelo que és. que te estimes. que te construas. que te reconstruas, se necessário. que valha a pena
que valha sempre a pena
por ti,
para ti.

quarta-feira, 5 de março de 2008

a gôndola já não cabe em nenhuma rua *






o amor aqui de casa vai secar com as plantas,
porque eu digo. porque eu quero. porque sim.






* David Mourão-Ferreira
* Sipping Water, 2007 (David Hilliard)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

os domingos são soalhos de madeira.
pertencem à preguiça, ao armstrong e sabem a tempo parado como os livros.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

so affections fade away and do adults just learn to play the most ridiculous repulsive games? *

o prazer denso do nevoeiro afasta as certezas por isso deixo-me tropeçar no limbo quântico.
fecho os olhos a contra-gotas. distorço a geometria da cara. porque

uma partícula (...) não pode ter uma posição definida e uma velocidade definida; uma partícula não pode ter um spin definido (horário ou anti-horário) ao longo de mais de um eixo; uma partícula não pode ter simultaneamente atributos definidos para coisas que estão em lados opostos do fosso da incerteza*


* Turn on me, The Shins
* O Tecido do Cosmos, Brian Greene

domingo, 3 de fevereiro de 2008


Ellen Lanyon

o chão de casa está limpo e as chávenas vazias. vejo-me de casacos e sapatos, quadrada como as malas. que dizia? que dizias?
digo. voltas?
tenho um carrocel suspenso por veias e é costume cortar as veias com uma tesourinha que guardo na casa de banho. gira-giras no meu sangue amargo e é possível que te deixe cair, não te quero partir e eu sem querer que.
partiste.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

tenho o quarto, com folhas e livros e fotografias e copos espalhados pelo chão com restos de vinho. uma chávena cheia de beatas. é dificil tão dificil deitar as beatas fora. os dias passam e as semanas passam e tudo passa porque sim.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

forever dead and lovely now

foi um verão de pés descalços e mãos magras. mãos que chegavam para te levar de uma só vez à boca como se faz aos frutos suculentos.




(...)

He had a bullet proof smile
He had money to burn
She thought she had the moon
In her pocket

But now she's dead
She's so dead
Forever dead and lovely now

I've always been told to
Remember this...
Don't let a fool kiss you
Never marry for love

He was hard to impress
He knew everyone's secrets
He wore her on his arm
Just like jewelry

He never gave but he got
He kept her on a leash
He's not the kind of wheel
You fall asleep at

But now she's dead
Forever dead
Forever dead and lovely now

Come closer, look deeper
You've fallen fast
Just like a plane on a
Stormy sea

(...)
Dead and Lovely, Tom Waits
ele tinha
um nariz de sardas,
uns dedos
uma boca,
um cabelo complicado.

ela tinha
um vestido ao sabor das amoras.

depois vieram os anos.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bébé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste

Adília Lopes




Barbara Kruger

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