sexta-feira, 26 de outubro de 2007









daqui

domingo, 21 de outubro de 2007

sobre o sol de domingo e uma preguiça de louça para lavar

bocejo bocejar bocejando
espreguiço espreguiçar espreguiçando



quinta-feira, 18 de outubro de 2007

my fantasy for the birthday boy


Cinco horas e treze minutos. O tempo esmorece com o fechar da porta. A rua voa e eles têm o silêncio. O silêncio deles.
Bocadinhos de poeira contrariam o sol enquanto a doçura espreita num sorriso demorado.
As mãos envolvem o pescoço.
A respiração pesa.
No corpo há séculos de espaço.
Ela tem medo do olhar dele que entra muito dentro,
ele expira devagar o cigarro.

O mundo pára.

domingo, 14 de outubro de 2007


Ruang rak noi nid mahasan



qualquer coisa de conteúdo:
há a casa vazia com um saco desfeito na sala,
uma pulseira enforcada no pulso.
pulso esquerdo.
Cheguei a casa com uma palavra entalada no olho, que esfreguei e esfreguei mas não saiu. Digo de mim para mim que envelhecer em sacos de plástico acontece. Que é normal enfiar bocados do corpo em caixas de cartão. Que faz sentido devolver memórias como quem devolve roupa nos centros comerciais.
Mas não.
Não.
Estou encalhada na primeira pessoa, é um problema.
mas agarro-me e tenho-me e sou. pela primeira vez em anos
sou. isso é bom.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

pedaços do oriente - 2



quarta-feira, 26 de setembro de 2007

pedaços do oriente - 1





terça-feira, 25 de setembro de 2007

... porque sou desordenada, mas não esqueço, nunca esqueço (beijinho especial ao nils) :)

tinha vários livros aglomerados secretária acima. o de cima, esse: "Confronting child abuse: Research for effective program design" de Deborah Daro.
A quinta frase (sem contar com a primeira que vem incompleta da página anterior) diz "In order to project the total social savings realized through permanency planning, we must accurately assess the ability of child welfare services to offer protection to children in the absence of placement and to correctly determine when at least temporary placement is the most appropriate course of treatment."

Deixo para cinco visitantes que queiram partilhar dos seus livros:

O Regulamento
1. Pegar no livro mais próximo.
2. Abri-lo na página 161.
3. Procurar a 5.ª frase completa.
4. Colocar a frase no blogue.
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo.
6. Passar o desafio a cinco pessoas.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Ainda não consegui pesar os ingredientes que usa nas palavras. Como as conjuga ordinariamente ao ponto do arrepio. Sei que gosto.
dele.


(imagem) The pillow book


Nos quilómetros de pele nua o sol pausa nas veias, e deixo-me ficar abreviada.
Falta pouco para Dezembro. Falta pouco.

sábado, 15 de setembro de 2007

gira ventoinha numa noite de pedras.

ir para um canto silenciar o corpo podre,

estou cansada de estar cansada de estar cansada

de estar morta.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

"saddest girl to ever hold a martini"

mexo os dedos
como se significasse alguma coisa

não significo nada.

e atrevo,
desfeita e desfocada.

como se sigificasse,
não significo nada.

domingo, 12 de agosto de 2007


Kurt Halsey




a mala por fazer as cuecas as saias os tops em cima da cama, tenho de ir à farmácia ao consultório à junta ao supermercado falta o fenistil o paracetamol o protector solar as fotocopias do passaporte e do BI as vacinas, os segundos em ponto morto eu em sorriso tatuado não acredito sou pintinhas explosôes e estou a fritar que nem uma batata frita

sábado, 4 de agosto de 2007

em contagem decrescente

tenho o corpo partido em mil formigas de ternura.
e,
tenho búzios espetados no coração que me abrem feridas no percurso cansado das artérias.

chego à conclusão:
a terra que carrego nas unhas nunca será feita de estrelas
mas não faz mal.

quarta-feira, 4 de julho de 2007




This is a wasteland now

segunda-feira, 25 de junho de 2007

sobre a mágoa de escrever através da pele


"Se murió a las cuatro y media
del gran reló de la sala,
a las cuatro y veinticinco
de su reló de pulsera.
Nadie lo notó. Su traje
seguía lleno de ella,
en pie, sobre sus zapatos,
hasta las sonrisas frascas
arriba en los labios. Todos
la vieron ir y venir,
como siempre.
No se le mudó la voz,
hacía la misma vida
de siempre."

Pedro Salinas



Katsura Komiyama





Katsura Komiyama
"No esquema vertical do corpo humano são três os pontos principais: o cérebro, o coração e o sexo. Mas o central é o segundo e, devido a essa situação, adquire o privilégio de concentrar de certo modo a ideia dos outros dois."


Camilla Engman

sábado, 16 de junho de 2007

Carregamos abismos de distancia.


Tim Van Der Weert

mas sou verde,
tenho muitas folhas e universos de fotossíntese.

já me habitavas, mesmo antes de ires.

sábado, 9 de junho de 2007

castelos impossíveis de
formigas encantadas
em jardins imaginários.
e todas as noites uma história nova.

entretanto o tempo esticou
e (aos tropeções)
o corpo cresceu.

venho espalhando pelos anos corações de plástico,
que calço arranco visto ponho tiro desfaço
de acordo com a disposição quotidiana.
nos dias rachados saio para a rua de peito vazio.

mas a vida corre e
os amigos estão e
a família,
quando não se tem,
substitui-se.




Anna Gaskell

quarta-feira, 6 de junho de 2007

gosto tanto tanto

















Luciana Abait

segunda-feira, 4 de junho de 2007

o rapaz que se encostava
e deixava a intimidade respirar


Tom Chambers

"Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável."


Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 28 de maio de 2007

quinta-feira, 17 de maio de 2007

"llevo los ojos abiertos.
no te veo."

"Eu acreditei que podia amar
o teu corpo, o teu modo de insinuar o coração
nas palavras. Mas era apenas a forma como a noite
sublinhava as superfícies, eu nunca pude atravessar
essa espessura. Estavas ali para te dispores aos meus sentidos
mas crescias fora de alcance no teu próprio
pensamento"




Kurt Halsey




Já só conhecia os dias onde tu os frequentavas, o sítio
em que me mantinhas era mais urgente
que o sangue. Sem dúvida que vinhas pelo meu desejo
mas eu perdia sempre alguma coisa
quando te ganhava."


Rui Pires Cabral

terça-feira, 8 de maio de 2007

Pauso na respiração para não entornar a desordem de sentimentos que cultivei. Cultivei?
Um passo de cada vez.


Lavo os copos.

Despejo as beatas.

Disperso um ultimo olhar pelo quarto sem segurar vestígios.

Evito os jeitos do edredão. A recriminação das almofadas.

Mastigo o que tenho de fazer, afasto o que tinha para pensar.

Não quero chegar à conclusão de que fui abandonada

por ele e pelos dias.





(Estou dobrada do avesso na mala do quarto e aqui ficarei até me acordares)

quarta-feira, 25 de abril de 2007


Van Gogh


três da tarde e

fogem no ar bocados de primavera.

deixo-me rodopiar descalça numa saia de verão.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Tenho memórias, tantas memórias

entrelaçadas

em círculos de arame farpado.


Se por vezes me trespassam

suspendo a respiração

de mansinho

num sorriso arranhado

e deixo magoar .
















boom

quarta-feira, 18 de abril de 2007

hoje estou em forma de

trigo e bocejo
água mineral

"Hold me now,
I'm hoping that you can explain
Little Arithmetics"

escapam

alguns traços desmaiados na monotonia do braço esquerdo.

para já, pelo menos. Por isso,

ele que pare de agir como se ainda habitasse o meu corpo.

segunda-feira, 9 de abril de 2007


Egon Schiele

Há princípio de luz

nos olhos,

e a quietude das coisas

destapa o silêncio

nos ramos cansados.


Tenho um despertar

na pontinha dos dedos

e a manhã dissolvida

no sabor de uma ameixa.






rasgou-se o dia em forma de sorriso.



domingo, 8 de abril de 2007

"i can't be the lighter


Lilya Corneli
just in case you never knew"

sexta-feira, 30 de março de 2007

a pele dele chegou fácil e sem aviso como uma sexta-feira

"your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers"

e. e. cumming

sábado, 24 de março de 2007

faltas





"falta aqui tudo o que amámos juntos,

o teu sorriso com as ruas dentro,

o secreto rumor das tuas veias

abrindo sulcos de palavras fundas

no rosto da noite inesperada.

Falta sobretudo à roda dos teus olhos

a pura ressonância da alegria.


Lembro-me de uma noite em que ficámos nus

para embalar um beijo ou uma lágrima.

Lutando, de mãos cortadas, até romper o dia,

largo, intacto,

nas pálpebras molhadas dos lírios.


Tu não eras ainda este perfil"


(...)
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de março de 2007

o verde das folhas foge no vento
e os pensamentos enganam contra a janela:

ainda não aprendi a forma segura de quebrar por isso vou-me detendo
devagarinho.
É que tenho por dentro muitos nós e um céu excessivamente parado.
E no canto dos lábios um pássaro com vícios impossíveis.
gomos do corpo dele.

sexta-feira, 16 de março de 2007


A. Skirdov

no cansaço um desejo oco de lhe asfixiar o silêncio
de lhe amarrotar a boca com os quilómetros de palavras que trago esmagadas no corpo.

... acontece que estou derrotada

entre noites mal dormidas e o fumo que ele expulsa de dentro
com os olhos apagados
no tecto.




domingo, 4 de março de 2007

passam as semanas e desmorono no domingo.


Kurt Halsey

"
Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca." (...)

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 2 de março de 2007

argh...!

(...) "fala-se de si, alguém fala de si, é isso, no singular, um só, o preposto, ele, eu, pouco importa, o preposto fala de si, não é isso, de outrem, também não, ele sabe lá, como poderia saber se falou disso ou não, ao falar de si, ao falar de outrem, ao falar das coisas, que outrem, que coisas, o preposto, ao falar de si, sou eu, falando de mim, tenho de falar dele, só posso falar de mim, também não, não posso falar de nada, mas falo, talvez fale dele, nunca saberei, como poderia saber, quem poderia saber, quem sabendo-o poderia dizer-me, não sei de quem se trata, é tudo o que sei, não, devo saber outra coisa, devem ter-me ensinado coisas, trata-se dele que não sabe nada, não quer nada, não pode nada, se não querendo nada se pode não poder nada, que não pode falar nem ouvir, que é eu, que não pode ser eu, de quem não posso falar, de quem tenho de falar" (....)
O inominável, Samuel Beckett

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Há pessoas que são portas fechadas. Não, não, mais que fechadas.

São portas acorrentadas. Com um cadeado gigante. Queimadas pela ferrugem, na espera das horas. Talvez por ser, também eu, velha como as cismas me aninhe nestas portas com um par de ganchos toscos e uma garrafinha de óleo. Deixo-me ficar, disposta a remendar os vultos inacabados que espreito apetitosamente através da fechadura. Tendo, no entanto, consciência de que os ganchos cansados com o tempo se partem. Que em cadeados incompletos encaixam chaves incompletas.

E eu não tenho chave para dar.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007


O meu corpo não é meu. Tão pouco chega a corpo. É um mapa de encruzilhadas que vou decepando com alguma pena. Ando tão entretida na pele que esqueço a (in)certeza.

ele.

trilho pequenos carreiros e espero, impaciente, as crostas.



n.





segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

os minutos em anos, os anos em pedra.
acordei de braços vazios e podia jurar que ainda estavas aqui.


Kent Williams

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

a pequena história do beijo que nasceu acabado


Dave Mckean


"A uma luz perigosa como água

De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência 
Nua nos meus braços
 
 
Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos"

Alexandre O´Neill

sábado, 3 de fevereiro de 2007


Nicoletta Tomas


Vou enrolando fios do teu cabelo nos dedos das mãos, não sei porquê.
tenho o corpo esburacado pela acidez da ausência e pouco me importa se mascaro horas mortas com a recordação obtusa de conchas salgadas.

O silencio corta no espelho.

a polpa dos lábios carnudos. os dedos inseguros, esgotados, pela simplicidade do ventre. a vertigem cega da saliva na pele. a nudez, a abafada sufocante húmida nudez.
devoro impaciente as sobras da tua ternura.

que faço do meu corpo desabitado, agora que não te tenho?

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007


natalie dee

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Sim

Paula Rego

"Gostava de chocolates e de bicicletas, avançava pela vida com uma audácia pueril. E eis que estava ali deitada, no meio do seu sangue vermelho de mulher, e a sua juventude e a sua alegria derramavam-se-lhe do ventre num gorgolejar obsceno.

- Então, minha flor, o que é que não vai bem? – disse a velha.

Olhei para ela com inquietação. Uma abortadeira. Parecia-se de tal maneira com o que realmente era que o seu aspecto não chegava a ser real. Estava vestida de preto, tinha os cabelos loiros, as bochechas flácidas, cor de rosa e brancas, e uma boca pintada de cor de laranja; os olhos eram os olhos de uma velha, muito pálidos, pestanejantes e um pouco remelosos. Veria ao menos bem? Adivinhava-se por baixo da pintura do rosto uma carne mal lavada. Olhei as duas mãos de unhas pintadas. Uma pessoa segura. Levantou os lençóis e eu virei as costas. Um cheiro pesado e baço encheu o quarto.

- Ainda não saiu – disse ela. – Fez bem em chamar-me. Vou ajudá-la. Isto vai ficar pronto num instante.

- Vai passar? – disse Hélène.

- Num instante.

- Está tudo bem? – disse eu.

- Com certeza. – A mulher começou a rir: - Você parecia tão transtornado que eu esperava o pior. Meu Deus! Parece que nunca viu nada. Eu ouvia-a remexer nas minhas costas: - Onde está o meu saco? É triste envelhecer; já não vejo nada a três passos de mim.

- Aqui o tem. – disse eu

Ela pegou no saco preto, abriu-o; vi um lenço, uma caixa de pó-de-arroz, um porta-moedas; a mulher mergulhou até ao fundo da bolsa a mão de unhas pintadas e tirou de lá uma pequena tesoura doirada. Aproximei-me da janela e contemplei a fachada cinzenta do outro lado da rua. Tinha frio. Não ousei dizer-lhe para passar as tesouras por uma chama.

- Não tenha medo, minha flor.

Eu ouvia a respiração sacudida de Hélène.

- Faça força – disse a velha -, já está. – Chamou por mim: - Senhor!

Voltei-me. Havia uma bacia nas mãos dela. Os dedos, o punho e todo o antebraço dela estavam tão vermelhos como as suas unhas.

- Vá despejar esta bacia.

Hélène estava deitada ao comprido, com os olhos fechados. A sua camisa de noite infantil descobria-lhe os joelhos; por baixo das suas pernas, havia um oleado cheio de algodões ensanguentados. Peguei na bacia, atravessei o patamar, e destapei a tampa da sanita. A bacia estava cheia de sangue e nessa nata vermelha flutuavam grandes pedaços de miolo de vitela. Esvaziei a bacia e puxei o autoclismo. Quando regressei ao quarto, a velha lavava na pia de despejo os algodões vermelhos.

- Dê-me um papel grande – disse ela. – Vou fazer um embrulho com todos esses algodões. Você deita-o depois num esgoto.

- Está tudo bem? – disse eu.

- Sim. Não é nada de grave. Riu: - com certeza que você não está habituado.

Levou as mãos e ajustou o chapéu diante do espelho. Eu voltei a atear o lume, e quando a velha saiu, fui sentar-me ao pé de Hélène."

Simone de Beauvoir in O Sangue dos Outros

domingo, 21 de janeiro de 2007

"Sometimes a woman's heart has salt,
Or too much blood;
I tear her breast,
And see the blood is mine,
Flowing from her, but mine,
And then I think
Perhaps the sky's too bright"
Dylan Thomas


Guayasamin






Subo,

com o estrondo ensurdecedor da casa vazia

mordo o lábio ao abrir a porta e entro.

o corpo desmorona em soluços pelo soalho.

sou um naco de carne, eu sei. Repito alto. Eu sei. Eu sei.

vou apodrecendo nos dias


mas às vezes sou estúpida o suficiente

e acredito que

Estúpida.


"Pin my arm to the wall
Now I'm too gone to fight"

sábado, 13 de janeiro de 2007

Nas horas fáceis descasco tangerinas com as mãos e devaneio pelos cantos da casa com rostos de desconhecidos acorrentados aos olhos.
Abrem-se (-me) os sonhos como frutos maduros.
o meu corpo que nem para amar serve


Maya Kulenovic

"O tempo rói-me a pele e os músculos. Rói-me os ossos. Secretamente infiltra-se nas veias e bate misturado no sangue."
Centeno

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

"Agarramo-nos e não ficamos presos a ninguém e a nada."
Y.K. Centeno

"Estávamos os dois parados sem falar e de repente o tempo condensou-se entre nós palpável como um nevoeiro que foi endurecendo até ficar igual a uma parede branca de cimento. Não dizíamos nada porque não havia nada a dizer e o tempo ficou ali entre nós de pé muito direito como um estranho que não nos tivesse sido apresentado e que por isso mesmo não podia meter-se na conversa."
Y.K. Centeno

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

"As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos. Estás inteiro e depois estás fracturado, aberto. Ela foi um corpo estranho introduzido na tua totalidade. E durante um ano e meio lutaste para o incorporar. Mas nunca serás inteiro enquanto não o expelires. Ou te livras dele ou o incorporas através da autodeformação. "
P. Roth

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

os dias fracos


preencho as gotas no chuveiro e escoo pelo ralo.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

"Will you marry me when you are seventy and have nothing to lose?"


Kent Williams

domingo, 3 de dezembro de 2006

a mala à espera de se transportar para o autocarro, os dossiers de se lerem até amanhã, a chuva à espera de ser encharcada, as botas de serem calçadas, o cachecol fora do pescoço,
e eu
eu esquecida na cama entre almofadas e ritmos tristes.



"I was getting ready to be a threat

I was getting set for my

accidental suicide

the kind where no one dies

no one looks too surprised

then you realize

that you're riding on a para-success

of a heavy-handed metaphor

and a feeling like you've been here before

because you've been here before

and you've been here before

then a word washed ashore

a word washed ashore

then a word washed ashore "

Andrew Bird

sábado, 2 de dezembro de 2006

loved-with-a-love-that-was-more-than-love-loved-
with-a-love-that-was-more-than-love-more-
than-love-love-more-than-love-
love-more-than-love-more-than-love.



Brigitte Carnochan




"I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea:
But we loved with a love that was more than love -
I and my Annabel Lee;"
Edgar Allan Poe

quarta-feira, 29 de novembro de 2006


Picasso

apanho os pedaços da noite que deixámos para trás
estilhaçados pelo chão do quarto
pelo centro da cama

tenho as mãos cheias de ti
não estás
mas tenho-te
tenho-te


aqui


mesmo quebrado
frio
e ausente


aqui.

domingo, 19 de novembro de 2006


Adelina Lopes

projecto-me para o inverno

quinta-feira, 2 de novembro de 2006


" their ideal neighborhood
of parked cars
of little green lawns
of little homes
the little doors that open and close
as their relatives visit
throughout the holidays
the doors closing
behind the dying who die so slowly
behind the dead who are still alive
in your quiet average neighborhood
of winding streets
of agony
of confusion
of horror
of fear
of ignorance.

a dog standing behind a fence.

a man silent at the window. "

Charles Bukowski



sexta-feira, 27 de outubro de 2006



"Tenho amor a isto, talvez porque não tenha mais nada que amar - ou talvez, também porque nada valha o amor de uma alma, e, se temos por sentimento que o dar, tanto vale dá-lo ao pequeno aspecto do meu tinteiro como à grande indiferença das estrelas."
Fernando Pessoa

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

"Mornings dissipate in somnolence."



"Summer grows old, cold-blooded mother.
The insects are scant, skinny.
In these palustral homes we only
Croak and wither. "
as folhas castanhas começam a estalar na planta dos pés
já tinha saudades de Outono

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

(5 de outubro)

a minha avó chama-se Ermelinda.
e r m e l i n d a.
fez hoje 81 anos e tem um olho de cada cor. um verde outro castanho.
sempre gostei disso. observo cada um enquanto fala, enquanto ri. intercalo em segredo. o castanho. o verde. o castanho. o verde.
contrariou os pais indo para enfermagem. contrariou os pais casando com o meu avô. como consequência não os teve no casamento. "mas de quem eu gostava era do teu avô"
gosto de a ouvir
é gira, a ermelinda. sai-se com coisas inesperadas.
hoje iamos jantar fora, celebrar.

- lá na minha terra chamam vaginas aos feijões verdes.
- oh mãe, só pode estar a fazer confusão...
- qual quê! é vaginas pois!

ermelinda :)
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