quinta-feira, 6 de janeiro de 2011


Morreu Malangatana...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Picking apples, making pies I

a casa nova tem um terraço cheio de vasos. no verão, lado a lado no degrau debaixo, partilhamos o cigarro. às vezes a velhinha de cima diz bom dia, boa tarde, como calha. o outono pede castanhas, vinho, o bolo a sair do forno. e nós temos espaço para crescer.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A process in the weather of the heart III



© julieonthemoon



A process in the weather of the heart II



© julieonthemoon
A process in the weather of the heart I




© julieonthemoon

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

ainda assim. o espaço dele infiltrado no meu não magoa, devia, mas não.

e se olhar, estou na sala, carlos bica a suavizar num rádio velhinho ao fundo. com um prato de douradinhos de pescada, capitão iglo ou qualquer coisa idiota. o prato em que ele pintou uns olhos e um nariz. o arroz por cima.

por dentro somos sorrisos. e somos.

não faz sentido, compreende-se, e não troco por nada.

é que o corpo dele é tão meu, e o meu já não é tão meu como dele.







terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ele tinha um corpo que diluía o sábado. O domingo. Qualquer agregado de segundos. Era fácil, como a cereja, e difícil, como o caroço.

Deixo-me sossegada em forma de parágrafo para esquecer a imperfeição das coisas. Lisboa é feita de calçadas, não se anda direito pelos buracos.
Deixo-me estar.
(volto a dizer, de mim para mim, que de olhos fechados a intimidade não dói tanto. de olhos fechados posso nem estar ali, não me vejo)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

ele continuava. berrava sozinho às esquinas. ria pateticamente com a boca toda. preferia os espaços vazios. porque no vazio o eco. o eco, sempre lhe dava com que conversar.
preparing to hibernate





i shall never get you put together entirely,
Pieced, glued, and properly jointed. *




* Sylvia Plath, The Colossus
* Kent Williams (painting)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A hora de despertar enoja-me o estômago. As pessoas formigam na rua com sacos e pressa, mecanizadas quotidiano adentro. O mundo todo é feito de persianas. Arrasto os lençóis pela cozinha e tomo comprimidos, antibióticos, anti-inflamatórios. O cão abana-se na esperança de trela. Suspiro um pedido de desculpas.
Ando a reparar que as palavras cabem menos na garganta.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

colhendo ilusões sucessivas no pomar*




*Miguel Torga
* Egon Schiele


dias de praia com grãos de areia nos olhos e um horizonte de sonhos na mala

sábado, 17 de maio de 2008

Não há na terra lugar nenhum. As raizes apodrecem no corpo. Continuamos a acordar todos os dias à hora em que o despertador não toca. Destapo os lençois com dificuldade e arrasto os chinelos pela casa. Por baixo da água no chuveiro espero que o pó desapareça, e com ele a pele.
Ao longe. "Filha, o corpo não tem raizes na terra" Eu sei mãe.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

eat me *



Julie Blackmon


se a mentira incomoda muita gente a transparência incomoda muito mais





* "oh sugar pie, but i will"

quarta-feira, 7 de maio de 2008

que morte estranha: deram com ela nua, com uma fina agulha de ouro espetada no coração*

*


começo a ter saudades do que não serei




* Buffalo 66
* Os Jardins de Eva, I. K. Centeno

quinta-feira, 1 de maio de 2008

no tempo inseguro dos silêncios puxaste-me à parte para a sobreposição dos beijos. ficámos por descobrir o sentido da consistência orgânica. sei que explodia. e enquanto explodia fazias-te vento e desaparecias.

sábado, 12 de abril de 2008

não há forma original de o sentir dizer ou desenhar
sempre este sítio estúpido de solidão
ajuda a fugir-me

quarta-feira, 2 de abril de 2008

voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração *





* Carlos de Oliveira
* My man, Billie Holiday
arrancar(-lhe) a máscara dabliu cê pato de delicadeza perfumada


The eyes of Stanley Pain, Dave Mckean


estou cansada

sexta-feira, 28 de março de 2008

sobre tirar sapatos rodopiar rodopiar rir sorrir abrir o espaço e dançar



lufa lufa

ontem no santiago alquimista :)

quarta-feira, 19 de março de 2008

dezanove

deixei de te escrever há algum tempo já. talvez pela mesma altura em que deixaste de me ler.
a verdade é que a necessidade de apoiar o raciocínio na ideia que tens do mundo se diluiu com ausência e por muito que seja, toda eu (de pensamentos, carnes, pêlos, genes e sangue), consequência da tua pessoa és cada vez menos determinante.
aprendi contigo. essencialmente a reparar.
pensar.
quando se cria o vício do pensamento acabamos por questionar tudo.
indispensável lupa, o microscópio virado para dentro de forma a que o sujeito (ele próprio) se veja. porque pai, de pouco serve estar exclusivamente virado para fora. o interior adormece empobrece apodrece. o mesmo se poderia dizer com a vivência exaustiva do interior bloqueando tudo o que é estimulo externo. adormece empobrece apodrece.

por isso, desde que nasci ensinaste a cultivar interesses, aprofundar gostos. pensar por mim, primeiro por mim. enriquecer com o que vem de fora através de um trabalho construtivo de selecção, analisar de forma crítica o que se vai estabelecendo por dentro. ter uma vida, minha. como me ensinaste. minha. não porque é suposto viver, não porque é suposto investir mas porque o quero fazer. há entre ambos umas diferença abismal, diferença reflectida. seria incorrecto permitir que outro o fizesse por mim, ditar uma vida normativa apenas pela obrigatoriedade social equivale a uma cabeçada na parede. ou serão os meus verdes 24? tu o dirás. eu o direi, se aí chegar.

espero que, a cima de tudo, sejas uma pessoa feliz. com a tua vida. que sejas um construto reflectido. que gostes de ti e estejas com quem gosta de ti pelo que és. que te estimes. que te construas. que te reconstruas, se necessário. que valha a pena
que valha sempre a pena
por ti,
para ti.
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