quarta-feira, 20 de julho de 2011

Aviso à navegação.
Os últimos meses foram uma distribuição aleatória de caos e horror. A vida que andava amena, de contornos almofadados, toda aninhadita pela hora do aconchego, sofreu uma mutação rançosa e putrefacta. Eis que no curto espaço de uma bofetada nos vimos feitos moscardos a esmigalhar a cornadura contra o video da janela, os dois em pânico e aos tropeções a correr atrás de prazos. A violência, desespero, calamidade, tudo a guinchar até ás cordas quebrarem. Enfim. Ser adulto.
Juro que foi tudo passado assim, à espera que viesse de cima e em queda livre uma batelada de cimento para me esfrangalhar contra a calçada. Sensivelmente a emoção de abaixo (excepto a beleza angelical da delpy e sem o felpudo para estrafegar na altura de aflição).

No entanto e a partir de hoje, o tempo será passado a fervilhar coisas boas: retomar leituras (ainda repousa ali virgem a pilha que veio este ano da feira do livro), retomar filmes (e são tantos que nem sei por onde começar), retomar a esplanada os jantares almoços patuscadas amigos (que justificadamente perdem a santa da paciência) e praia praia praia, fins de semana para poder enjoar da praia.

(sem a beleza angelical da delpy, convenha-se)

terça-feira, 28 de junho de 2011




Cansa esta obrigação geral e uniformizante de espremer amor em tubos de ensaio.
Não me entra.

Tenho um querer, e no meu querer não cabe essa palavra.
Está demasiado suja de tão tocada.

Já não quero saber o que diz o amor dos outros, porque trago comigo um formigueiro abstracto que é só meu e para este rapaz o guardo. Nele há espaço para tudo, desde a dor ao fracasso. No abismo circunstancial de acasos nenhum joelho tem o nosso prazer de encaixe. Que aqueça mas não arda e que aconchegue mas não desfaça.






and all the towns we built,

we built them so the lions could escape,

so they could roam in houses of their own.














* imagens de Penelope Hillfräu & Francisca Ribeiro

domingo, 26 de junho de 2011

musica de domingo #1
(e melancia)

Confesso desejar o corpo mergulhado em água fresca até ao queixo.
No entanto, e cá em casa, os quarenta graus de domingo passam-se em cuecas talhando grossas fatias de melancia. A melancia, como se sabe, come-se de forma javarda e sem decoro sorvendo indiscriminadamente as respectivas sementes e água. Quero lá saber se depois me crescem enormes e redondas melancias no ventre, fico saciada.

segunda-feira, 2 de maio de 2011



a primavera chegou de sandálias e pousou bagagem.
se é verdade que ando a descascar a roupa acumulada pelo inverno e rasgar sorriso até não poder mais, é verdade também que o pólen forçou caminho pelo tubo respiratório.
é ver-me de fronha entupida em ode às flores amarelas.

Sobre o polén, à parte da minha aflição congestionada e do zyrtec diário:
os pequeninos grãos têm o seu valor nutritivo, diz que o polén eleva a hemoglobina no sangue. Para além da composição proteica (segundo o Wikipédia, de 16 a 40%), têm aminoácidos e Vitaminas (como a C).
Não é só para as abelhas portanto.
Penso que abrir muito a boca e lançar a correr pelo jardim da estrela não será má ideia.

* imagem by Natalie Dee

terça-feira, 12 de abril de 2011

Os joelhos dão pela fraqueza de não conseguir desenhar a anatomia da minha mudança.

Anatomias de mudança, quero dizer.

Estico muito o indicador mas nem por isso sei distinguir o “é aqui” do “é ali”. Sei que chego à senhora dos jornais pela mesma hora e ela sorri o jornal sem eu o pedir. Sei que pasmo horas de fim de semana na esplanada. Com ele, os nossos vizinhos e amigos. O senhor Vasco da bengala passa ali todos os dias, partilha sempre a lágrima pela mulher. E nós que somos todos tão iguais gostamos de o ouvir. Sei que sou pequena com voz a crescer para mulherzinha.


Mas pôr o dedo a dizer “é aqui”, ainda não.




quinta-feira, 31 de março de 2011

cutting ice to snow *



as maçãs descascadas são para se comer com os molares mas

ao abocanhar uma maçã completa o incisivo da frente rasga.

é preciso ver, nesta vida de frutos, o que dá mais e menos trabalho a comer







* Musica Efterklang / Documentário In a dream

segunda-feira, 28 de março de 2011



A sensação de vermos o que sai cá de dentro - do mais cá de dentro de nós -, apropriado e profanado por um/a javardo/a qualquer sem espinha dorsal é algo que dá vómitos.




nenhum texto poderia explicitar melhor o que se anda a passar por este blogue.


haja pouca vergonha e tamanha imbecilidade. aconselho a menina Maria a ler o texto completo (citado acima e que lhe sirva de exemplo) para se instruir, dado que (iupi iai iei) retirou já os meus textos do seu fotolog.


espero que esta e mais esta sem esquecer esta e a outra o ponto de partida desta e a falta de imaginação daquela com o excesso de confiança da outra, vão todas pelo mesmo caminho.


só para esclarecer e por ordem, todas elas daqui e mais daqui sem esquecer daqui e daqui o ponto de partida daqui e a falta de imaginação daqui com o excesso de confiança daqui.
barf (a continuação da saga...)

já não sei muito bem se fique chateada ou se encolha ombros em pena. é que a minha cabecinha continua agarrada aos ombros e vai amadurecendo frutos (seja ou não no virtual). no entanto o que será da cabeça desta menina sem material alheio para catrapiscar? deixará porventura de pensar?


este texto veio do algodão 2004 e tem um final de 2008 (quando ainda escrevia tim-tim por tim-tim desabafos mais transparentes).

entretanto chegámos a 2011. a menina pode desenterrar os meus pedaços pré-históricos como bem entender mas ao menos cite, sim?


ah.... fui encontrar o mesmo aqui.

resta de facto concluir que a transparência, mais do que a mentira, incomoda muita gente.

domingo, 27 de março de 2011

barf

gosto quando um leitor por aqui tropeça e calha de achar piada ao que escrevo.

já pouco escrevo é verdade. ainda assim volto. abro janelas, deixo as palavras arejar, sacudo-lhes o pó e sempre vou tirando o verdete à memória.

já tinha acontecido encontrar copy/paste dos meus desabafos, situações essas que passaram por aqui despercebidas. às vezes sente-se o caruncho mas a pachorra é pouca para esburacar soalho.

posto isto, dado que toda a paciência tem limites e eu posso ser uma miúda simpática mas não nutro simpatia por quem pretende passar por seu o que não criou, esbarrei aqui com a vergonhosa cópia de retalhos deste post e mais ultima frase deste (publicados a Setembro e Janeiro de 2008).

Entrarei em contacto com a sujeita. E o algodão passa a estar licenciado pela Creative Commons.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

shameful admission #1



cheira-me boa semana (infelizmente começada por dia de são valentim... a minha neura implica com os dias instituídos ou então ó-pra-nós-tão-bonitos-a-vomitar-os-planos-cor-de-rosa-dos-outros-vamos-espingardar-namoradinhos-e-pendurar-respectivas-cabeças-no-quintal-sim?) sim :)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011


Morreu Malangatana...

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Picking apples, making pies I

a casa nova tem um terraço cheio de vasos. no verão, lado a lado no degrau debaixo, partilhamos o cigarro. às vezes a velhinha de cima diz bom dia, boa tarde, como calha. o outono pede castanhas, vinho, o bolo a sair do forno. e nós temos espaço para crescer.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A process in the weather of the heart III



© julieonthemoon



A process in the weather of the heart II



© julieonthemoon
A process in the weather of the heart I




© julieonthemoon

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

ainda assim. o espaço dele infiltrado no meu não magoa, devia, mas não.

e se olhar, estou na sala, carlos bica a suavizar num rádio velhinho ao fundo. com um prato de douradinhos de pescada, capitão iglo ou qualquer coisa idiota. o prato em que ele pintou uns olhos e um nariz. o arroz por cima.

por dentro somos sorrisos. e somos.

não faz sentido, compreende-se, e não troco por nada.

é que o corpo dele é tão meu, e o meu já não é tão meu como dele.







terça-feira, 4 de novembro de 2008

Ele tinha um corpo que diluía o sábado. O domingo. Qualquer agregado de segundos. Era fácil, como a cereja, e difícil, como o caroço.

Deixo-me sossegada em forma de parágrafo para esquecer a imperfeição das coisas. Lisboa é feita de calçadas, não se anda direito pelos buracos.
Deixo-me estar.
(volto a dizer, de mim para mim, que de olhos fechados a intimidade não dói tanto. de olhos fechados posso nem estar ali, não me vejo)

terça-feira, 7 de outubro de 2008

ele continuava. berrava sozinho às esquinas. ria pateticamente com a boca toda. preferia os espaços vazios. porque no vazio o eco. o eco, sempre lhe dava com que conversar.
preparing to hibernate





i shall never get you put together entirely,
Pieced, glued, and properly jointed. *




* Sylvia Plath, The Colossus
* Kent Williams (painting)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A hora de despertar enoja-me o estômago. As pessoas formigam na rua com sacos e pressa, mecanizadas quotidiano adentro. O mundo todo é feito de persianas. Arrasto os lençóis pela cozinha e tomo comprimidos, antibióticos, anti-inflamatórios. O cão abana-se na esperança de trela. Suspiro um pedido de desculpas.
Ando a reparar que as palavras cabem menos na garganta.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

colhendo ilusões sucessivas no pomar*




*Miguel Torga
* Egon Schiele


dias de praia com grãos de areia nos olhos e um horizonte de sonhos na mala

sábado, 17 de maio de 2008

Não há na terra lugar nenhum. As raizes apodrecem no corpo. Continuamos a acordar todos os dias à hora em que o despertador não toca. Destapo os lençois com dificuldade e arrasto os chinelos pela casa. Por baixo da água no chuveiro espero que o pó desapareça, e com ele a pele.
Ao longe. "Filha, o corpo não tem raizes na terra" Eu sei mãe.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

eat me *



Julie Blackmon


se a mentira incomoda muita gente a transparência incomoda muito mais





* "oh sugar pie, but i will"

quarta-feira, 7 de maio de 2008

que morte estranha: deram com ela nua, com uma fina agulha de ouro espetada no coração*

*


começo a ter saudades do que não serei




* Buffalo 66
* Os Jardins de Eva, I. K. Centeno

quinta-feira, 1 de maio de 2008

no tempo inseguro dos silêncios puxaste-me à parte para a sobreposição dos beijos. ficámos por descobrir o sentido da consistência orgânica. sei que explodia. e enquanto explodia fazias-te vento e desaparecias.

sábado, 12 de abril de 2008

não há forma original de o sentir dizer ou desenhar
sempre este sítio estúpido de solidão
ajuda a fugir-me

quarta-feira, 2 de abril de 2008

voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração *





* Carlos de Oliveira
* My man, Billie Holiday
arrancar(-lhe) a máscara dabliu cê pato de delicadeza perfumada


The eyes of Stanley Pain, Dave Mckean


estou cansada

sexta-feira, 28 de março de 2008

sobre tirar sapatos rodopiar rodopiar rir sorrir abrir o espaço e dançar



lufa lufa

ontem no santiago alquimista :)

quarta-feira, 19 de março de 2008

dezanove

deixei de te escrever há algum tempo já. talvez pela mesma altura em que deixaste de me ler.
a verdade é que a necessidade de apoiar o raciocínio na ideia que tens do mundo se diluiu com ausência e por muito que seja, toda eu (de pensamentos, carnes, pêlos, genes e sangue), consequência da tua pessoa és cada vez menos determinante.
aprendi contigo. essencialmente a reparar.
pensar.
quando se cria o vício do pensamento acabamos por questionar tudo.
indispensável lupa, o microscópio virado para dentro de forma a que o sujeito (ele próprio) se veja. porque pai, de pouco serve estar exclusivamente virado para fora. o interior adormece empobrece apodrece. o mesmo se poderia dizer com a vivência exaustiva do interior bloqueando tudo o que é estimulo externo. adormece empobrece apodrece.

por isso, desde que nasci ensinaste a cultivar interesses, aprofundar gostos. pensar por mim, primeiro por mim. enriquecer com o que vem de fora através de um trabalho construtivo de selecção, analisar de forma crítica o que se vai estabelecendo por dentro. ter uma vida, minha. como me ensinaste. minha. não porque é suposto viver, não porque é suposto investir mas porque o quero fazer. há entre ambos umas diferença abismal, diferença reflectida. seria incorrecto permitir que outro o fizesse por mim, ditar uma vida normativa apenas pela obrigatoriedade social equivale a uma cabeçada na parede. ou serão os meus verdes 24? tu o dirás. eu o direi, se aí chegar.

espero que, a cima de tudo, sejas uma pessoa feliz. com a tua vida. que sejas um construto reflectido. que gostes de ti e estejas com quem gosta de ti pelo que és. que te estimes. que te construas. que te reconstruas, se necessário. que valha a pena
que valha sempre a pena
por ti,
para ti.

quarta-feira, 5 de março de 2008

a gôndola já não cabe em nenhuma rua *






o amor aqui de casa vai secar com as plantas,
porque eu digo. porque eu quero. porque sim.






* David Mourão-Ferreira
* Sipping Water, 2007 (David Hilliard)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

os domingos são soalhos de madeira.
pertencem à preguiça, ao armstrong e sabem a tempo parado como os livros.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

so affections fade away and do adults just learn to play the most ridiculous repulsive games? *

o prazer denso do nevoeiro afasta as certezas por isso deixo-me tropeçar no limbo quântico.
fecho os olhos a contra-gotas. distorço a geometria da cara. porque

uma partícula (...) não pode ter uma posição definida e uma velocidade definida; uma partícula não pode ter um spin definido (horário ou anti-horário) ao longo de mais de um eixo; uma partícula não pode ter simultaneamente atributos definidos para coisas que estão em lados opostos do fosso da incerteza*


* Turn on me, The Shins
* O Tecido do Cosmos, Brian Greene

domingo, 3 de fevereiro de 2008


Ellen Lanyon

o chão de casa está limpo e as chávenas vazias. vejo-me de casacos e sapatos, quadrada como as malas. que dizia? que dizias?
digo. voltas?
tenho um carrocel suspenso por veias e é costume cortar as veias com uma tesourinha que guardo na casa de banho. gira-giras no meu sangue amargo e é possível que te deixe cair, não te quero partir e eu sem querer que.
partiste.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

tenho o quarto, com folhas e livros e fotografias e copos espalhados pelo chão com restos de vinho. uma chávena cheia de beatas. é dificil tão dificil deitar as beatas fora. os dias passam e as semanas passam e tudo passa porque sim.
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