sexta-feira, 30 de abril de 2004

Ontem conheci uma pessoa que já conhecia. Ou pelo menos pensava que sim. Mas afinal não.
Ontem é que a conheci a sério. Pelo menos mais um bocadinho, mais do que qualquer impressão falsa.
Já me tinha esquecido do que era uma conversa. Daquelas sobre a vida, sobre a morte, sobre objectivos ou falta deles. Sobre gostos, sobre raparigas, sobre rapazes, sobre comportamentos.
Esta pessoa mostrou-se diferente de todas as que conheci até hoje.
Não no sentido amoroso da coisa, porque nesse campo estou satisfeita, mas em termos filosóficos. Conheci alguém que se desinteressa completamente pela vida. Não por depressão, nem por insucesso escolar, social ou emocional (até porque é bem sucedido), mas por pura indiferença.
Tira boas notas, é verdade, conhece muitas muitas pessoas, também é verdade, tem mil e uma coisas para fazer, sim, uma familia que ama, amigos, amigas, namorada, prémios literários, viaja pelo mundo (este ano vai um mês para a Argentina)....
Mas não atribui importância a nenhuma destas coisas (palavras suas). Se amanhã morresse era-lhe completamente indiferente.
Pergunto eu, como é possivel?
Eu não sou assim. Não me imagino a viver assim.
No fundo, então, toda aquela vida de sucesso não significa nada.
Será que tanta auto-exigência resultou em apatia?
Parece-me que sim.
Será que impôs tanto tanto, que nem pensou se de facto aquilo era o que queria? Talvez.
Nunca exigi muito da minha pessoa, nunca esperei por grandes acontecimentos (comparando com a sociedade que rodeia, claro, porque para mim aquilo que sonho é gigantesco, chega e sobra na minha alma). Contento-me com pequenos pormenores, com grandes pormenores, não espero demais, não espero de menos. Espero apenas. Contento-me apenas.
Quero viver a minha vida em serenidade, uma grande caminhada.
Mas morrer já? Não....
Falta-me tanto....!
Milhões de livros para ler, filmes a ver, peças de teatro, cursos para tirar, viagens pelo mundo fora, filhos, muitos filhos, uma casa gigantesca cheia de janelas enormes, quem sabe um livro para escrever, muitos cães, muitas fotografias, muitos concertos, muitos sorrisos, muitos abraços, muitos beijinhos...
Já....? ainda não...
Morreria incompleta. Não quero morrer incompleta.
Quando for velhinha, com netos e bisnetos. Com os olhos a transbordar do tempo que vivi...
Aí sim a minha vida se completaria. É um sonho que gosto de imaginar.
Mas ao ouvir o contrário deste meu sonho. De alguém para quem nada disto é importante, para quem nem um segundo de felicidade existe... o meu peito aperta-se. Sufoco de impotência. De querer mostrar por estes olhos a beleza que encontro em cada sopro que enche o meu corpo.

terça-feira, 27 de abril de 2004

Fecha-me os olhos, por favor, não os deixes ver.
É duro de mais, é branco de mais.
Magoa.
Tudo tão claro.
A verdade é crua.
Dos meus olhos vai escorrendo a alma, pergunto até quando. Mas ela não responde, creio que é de mim que foge.
O corpo cansado, aos poucos, sufoca.
Arranca-me daqui, inventa uma história nova para a minha vida. Esta está tão gasta.
Cria uma morte sem sofrimento.
Tem piedade, não me deixes cair.
Já estou tão partida, não vês?

domingo, 25 de abril de 2004

Depois de um banho acabado de tomar,
esta sensação de verão.
Não vou secar o cabelo.
Assim molhado sabe-me bem.

As rosas vermelhas que o meu pai me deu,
apesar da água em que me apressei a pô-las, continuam cabisbaixas.
*Suspiro*

Hoje apetece-me ouvir algo antigo.
Que não ouça há muito tempo.
(Julia vai espreitar os CD’s)

Dave Matthews band ao vivo “listener supported”
Este serve o meu humor que nem uma luva.

Se puderem ouçam esta versão da musica “The Stone”, arrepia.
Pudesse definir doçura,
sussurrava esta canção a quem de facto a sentisse.

quarta-feira, 21 de abril de 2004

Se eu não me mexer.
Se ficar aqui, quietinha, refugiada numa palavra.
Se respirar devagarinho para que ninguém perceba. Ninguém descubra.
A minha lágrima.
Talvez assim...

Talvez assim a chuva não dê pela minha presença,
nem os cães da rua, nem as pedras da calçada.

Talvez assim...
...o meu coração não se parta.

domingo, 18 de abril de 2004

Tenho meio copo de água em cima da secretária.
Deve estar ali parado há três dias e ainda não arranjei paciência para o levar à cozinha.
Já está com bolhinhas e tudo!
Chega a ser irónico, já que devo ter feito o percurso quarto-cozinha umas 30 vezes (só no dia de hoje).

Isto conduz-me à questão filosófica, (Júlia pensa cuidadosamente)
será a preguiça que me move...?

Mas claro está, se dermos uma olhadela atenta ao resto da secretária a ironia deixa de fazer sentido, caos é sem duvida a palavra indicada.
Ora vejamos:
5 lenços ranhosos (está certo, contei-os) e respectivo pacote vazio
Uma disquete que o meu tio arranjou para a máquina digital (um piolhito da mustek que me segue para todo o lado).
Agenda telefónica da minha irmã (graça divina que a colocou aqui, só pode)
2 canecas com lapiseiras, canetas de feltro etc, que têm a bela particularidade de não escrever.
Uns collants (no coments)
Cadernos, um livro gigantesco de biologia (concepts & connections)
Fotografias (carlos portugal foto express, reportagem de fotografia e video digital a.p.s. sistema advance photo system index print tratamento de imagem digital, vieira de leiria marinha grande monte real leiria, se quiserem as moradas também estão ali)
Uma moeda de 5 cts
Isto tudo bem misturado, sem qualquer organização e....... Secretária da Júlia!

sou atingida pela verdade!
isto é mesmo de quem não tem mais nada que fazer


(to be continued........................................
...................................ou talvez não)
Ciclo Vincent Gallo no King!
De 15 a 21 de Abril às 18h

Dia 18
"Buffalo 66", de Vincent Gallo (deu a semana passada na TV, se nunca viram... VEJAM)

Dia 19
"Doc's Kingdom", de Robert Kramer

Dia 20
"Trouble Every day", de Claire Denis

Dia 21
"Buffalo 66", de Vincent Gallo

Não esquecer que saiu há pouco tempo para os cinemas "The Brown Bunny".
Mal cheguei a casa estatelei-me contra a secretária...

...amanhã tenho a perna toda negra...


... belo final de férias este...

quarta-feira, 14 de abril de 2004

Elvis Costello. Que posso eu dizer?
Adoro a voz, as melodias, as letras! São dele algumas das musicas que ainda têm a magia de me acalmar.
Concerto dia 8 de Maio em Lisboa às 21h30, no coliseu dos Recreios.
Vem apresentar o seu mais recente album "North", já ouvi e gostei.
Queria mesmo mesmo mesmo MESMO muito ir, mas bolas... entre 20 a 40 euros?!!?? tá tudo louco?!! Os preços andam a subir frenéticamente!
O concerto de Nick Cave por exemplo, 50 euros?!!?!?
*Suspiro*


(pa ti mor)
"...
Still
Lying in the shadows this new flame will cast
Upon everything we carry from the past
You were made of every love and each regret
Up until the day we met
There are no words that I'm afraid to hear
Unless they are Goodbye, my dear
Still
I was moving very fast
But in one place
Now you speak my name and set my pulse to race
Sometimes words may tumble out but can't eclipse
The feeling when you press your fingers to my lips
I want to kiss you in a rush
And whisper things to make you blush
And you say, Darling, hush
Hush
Still, still"

Para quem não conhece aqui vão algumas sugestões de musicas:
"My funny valentine"
"I want you"
"She"
"Pump it up"
"watching the detectives"
"My mood swings"
(.........)
são tantas, tantas...!! Espero que gostem!

segunda-feira, 12 de abril de 2004

Se pudesse viver para sempre escolhia aquele momento.
Tu a descascar laranjas.

a faca meio raquítica
“dá-te jeito essa faca?”
“muito mais do que as outras de serrilha”

eu encantada:
o teu sorriso doce,
os dedos compridos, as unhas roídas,
as mãos pingavam de sumo.
tu tão concentrado, tão minucioso,
como se daquela laranja dependesse o mundo

e uma ternura brutal, gigantesca, monstruosa
a explodir no meu peito, porque aquela laranja tinha um destino,
o meu.

domingo, 4 de abril de 2004

Mas quando as vozes se calam.
Quando fecho a porta e sozinha percorro o quarto...
Lá está o espelho... à espera.
Silencioso.
Envolto numa quietude perversa.
Consigo sentir. Consigo cheirar. A sua voz suja de maldade.
Sussurra ao ouvido tudo o que não quero ouvir. Tudo o que não sou. O que queria ser. Mais magra, esbelta, mais alta, esguia, elástica, perfeita... perfeita... não na minha perfeição. Na perfeição deles. Lá fora, no mundo.
Então, com um gesto violento fecho a porta do armário. Escondo-me nos cobertores e tapo os ouvidos.
Num leve murmúrio ainda ouço, baixinho. Palavras aparentemente dóceis, sopradas ao ouvido: “espreita, dá uma olhadela, vê a tua realidade”.
E eu fraca, sigo. Deitando migalhinhas de pão, para não me perder, esperando encontrar uma resposta certa.
Aproximo-me lentamente.
Dispo as roupas e nua olha para este corpo.
Um corpo que não é meu.
Não pode ser meu.
Não me vejo aqui, não me quero aqui.
Quero apagar. Arrancar o cabelo, rasgar a pele, cuspir a carne, esmagar os ossos.
Deitar fora a imagem que me reflecte. Queimar, cortar, despedaçar, não deixar um centímetro.
Guardar apenas a alma.

“O que é que estavas a fazer?”
“Estava a olhar para a embalagem do iogurte, é tudo tão simples, irónico. Também estou em pedaços.”
“Oh mor... eu colo-te”

sexta-feira, 2 de abril de 2004

Os dias passam a correr e eu nem dou por eles. É como se viajasse no ponteiro de um relógio tão gigantesco que as suas horas exactas fossem incapazes de determinar.
Mas quando este raro momento se dá, quando vejo os segundos, horas, dias que me abandonam, fico aqui pasmada a vê-los partir.
Observo-os indefesa, olho para trás, tropeço nos que surgem sem aviso, doidos por desaparecer novamente. Fogem depressa para não os conseguir alcançar.
Não os acompanho, desoriento-me, perco-me, tanto saltar para o ponteiro do velho relógio que gira, gira maquinalmente. Só que eu caio, perco o passo, desespero.
Gostava de os fazer parar por um bocadinho para respirar à vontade. Sem a pressão do dia seguinte, do movimento seguinte, da palavra seguinte.
Tudo por uns instantes.
O prazer de fazer o tempo.
A calma de um dia sem horas.
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