segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Há pessoas que são portas fechadas. Não, não, mais que fechadas.

São portas acorrentadas. Com um cadeado gigante. Queimadas pela ferrugem, na espera das horas. Talvez por ser, também eu, velha como as cismas me aninhe nestas portas com um par de ganchos toscos e uma garrafinha de óleo. Deixo-me ficar, disposta a remendar os vultos inacabados que espreito apetitosamente através da fechadura. Tendo, no entanto, consciência de que os ganchos cansados com o tempo se partem. Que em cadeados incompletos encaixam chaves incompletas.

E eu não tenho chave para dar.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007


O meu corpo não é meu. Tão pouco chega a corpo. É um mapa de encruzilhadas que vou decepando com alguma pena. Ando tão entretida na pele que esqueço a (in)certeza.

ele.

trilho pequenos carreiros e espero, impaciente, as crostas.



n.





segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

os minutos em anos, os anos em pedra.
acordei de braços vazios e podia jurar que ainda estavas aqui.


Kent Williams

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

a pequena história do beijo que nasceu acabado


Dave Mckean


"A uma luz perigosa como água

De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
E és a mesma
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado de mulher
E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência 
Nua nos meus braços
 
 
Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos"

Alexandre O´Neill

sábado, 3 de fevereiro de 2007


Nicoletta Tomas


Vou enrolando fios do teu cabelo nos dedos das mãos, não sei porquê.
tenho o corpo esburacado pela acidez da ausência e pouco me importa se mascaro horas mortas com a recordação obtusa de conchas salgadas.

O silencio corta no espelho.

a polpa dos lábios carnudos. os dedos inseguros, esgotados, pela simplicidade do ventre. a vertigem cega da saliva na pele. a nudez, a abafada sufocante húmida nudez.
devoro impaciente as sobras da tua ternura.

que faço do meu corpo desabitado, agora que não te tenho?

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