sexta-feira, 30 de março de 2007

a pele dele chegou fácil e sem aviso como uma sexta-feira

"your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers"

e. e. cumming

sábado, 24 de março de 2007

faltas





"falta aqui tudo o que amámos juntos,

o teu sorriso com as ruas dentro,

o secreto rumor das tuas veias

abrindo sulcos de palavras fundas

no rosto da noite inesperada.

Falta sobretudo à roda dos teus olhos

a pura ressonância da alegria.


Lembro-me de uma noite em que ficámos nus

para embalar um beijo ou uma lágrima.

Lutando, de mãos cortadas, até romper o dia,

largo, intacto,

nas pálpebras molhadas dos lírios.


Tu não eras ainda este perfil"


(...)
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 19 de março de 2007

o verde das folhas foge no vento
e os pensamentos enganam contra a janela:

ainda não aprendi a forma segura de quebrar por isso vou-me detendo
devagarinho.
É que tenho por dentro muitos nós e um céu excessivamente parado.
E no canto dos lábios um pássaro com vícios impossíveis.
gomos do corpo dele.

sexta-feira, 16 de março de 2007


A. Skirdov

no cansaço um desejo oco de lhe asfixiar o silêncio
de lhe amarrotar a boca com os quilómetros de palavras que trago esmagadas no corpo.

... acontece que estou derrotada

entre noites mal dormidas e o fumo que ele expulsa de dentro
com os olhos apagados
no tecto.




domingo, 4 de março de 2007

passam as semanas e desmorono no domingo.


Kurt Halsey

"
Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca." (...)

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 2 de março de 2007

argh...!

(...) "fala-se de si, alguém fala de si, é isso, no singular, um só, o preposto, ele, eu, pouco importa, o preposto fala de si, não é isso, de outrem, também não, ele sabe lá, como poderia saber se falou disso ou não, ao falar de si, ao falar de outrem, ao falar das coisas, que outrem, que coisas, o preposto, ao falar de si, sou eu, falando de mim, tenho de falar dele, só posso falar de mim, também não, não posso falar de nada, mas falo, talvez fale dele, nunca saberei, como poderia saber, quem poderia saber, quem sabendo-o poderia dizer-me, não sei de quem se trata, é tudo o que sei, não, devo saber outra coisa, devem ter-me ensinado coisas, trata-se dele que não sabe nada, não quer nada, não pode nada, se não querendo nada se pode não poder nada, que não pode falar nem ouvir, que é eu, que não pode ser eu, de quem não posso falar, de quem tenho de falar" (....)
O inominável, Samuel Beckett
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